Nenhuma sociedade consegue desenvolver-se de forma sólida sem confiança. A confiança é o cimento invisível que sustenta as instituições, a economia, a coesão social e a própria democracia. Quando um povo acredita nos seus governantes, aceita sacrifícios temporários, participa nos esforços coletivos e mobiliza-se para objetivos de longo prazo. Quando essa confiança desaparece, instala-se o cinismo, a desmotivação e a sensação de que o país navega sem rumo.
Uma liderança política séria não se mede pela capacidade de produzir frases de efeito ou de manipular perceções momentâneas. Mede-se pela honestidade intelectual, pela clareza estratégica e pela coragem de enfrentar a realidade tal como ela é. Governar implica dizer verdades difíceis quando necessário, explicar os problemas do país e construir consensos em torno de soluções credíveis. A função de um primeiro-ministro não é alimentar ilusões; é criar condições para que a sociedade compreenda os desafios e participe ativamente no processo de transformação nacional.
Por isso, causa perplexidade ouvir de Luís Montenegro afirmações como a de que a situação económica e financeira portuguesa é «melhor que a alemã». A comparação, para além de simplista, revela uma preocupante desconexão com a realidade económica internacional e com a própria experiência quotidiana dos portugueses. A Alemanha continua a ser uma das maiores potências industriais do mundo, com níveis de produtividade, capacidade tecnológica, investimento e poder económico incomparavelmente superiores aos de Portugal. Mesmo enfrentando dificuldades conjunturais, possui uma robustez estrutural que Portugal ainda está longe de alcançar.
Fazer declarações desta natureza não demonstra confiança; demonstra deslumbramento político e uma tentativa de construir uma narrativa artificial. E quando a política se transforma numa operação de marketing permanente, perde-se aquilo que é essencial numa democracia: a credibilidade.
O problema não está apenas na frase em si. O problema é o que ela revela sobre uma certa cultura política baseada na aparência, na propaganda e na necessidade constante de vender otimismo vazio. Um governante que exagera a realidade económica do país transmite a ideia de que prefere proteger a sua imagem em vez de enfrentar os problemas estruturais de Portugal: baixos salários, fraca produtividade, dependência externa, dificuldades na habitação, degradação dos serviços públicos e ausência de uma estratégia consistente de crescimento económico.
Um país não avança através de discursos destinados a enganar ou distrair. Avança quando existe uma visão clara para o futuro, acompanhada de seriedade e competência. O povo português não precisa de fantasias políticas nem de comparações absurdas para acreditar no seu país. Precisa de líderes capazes de reconhecer limitações, identificar oportunidades e mobilizar a sociedade em torno de um projeto nacional credível.
A verdade pode ser desconfortável, mas é sempre mais útil do que a ilusão. Quando os cidadãos percebem que estão a ser manipulados, cresce a distância entre governantes e governados. Essa erosão da confiança tem consequências profundas: afasta investimento, reduz a participação cívica, aumenta o populismo e enfraquece a própria legitimidade democrática.
Portugal necessita urgentemente de uma liderança política menos vaidosa e mais comprometida com a realidade. Uma liderança que compreenda que o desenvolvimento económico não nasce da retórica, mas da confiança. E a confiança constrói-se com verdade, coerência, responsabilidade e visão estratégica.
CEO do Taguspark, Professor Universitário