Quando um país atravessa uma tragédia, a comunicação política deve ser austera, precisa e, sobretudo, humana. O que observei na deslocação de Luís Montenegro à zona afetada pela tempestade Kristin foi o oposto: uma comitiva faustosa, coreografada para a fotografia, mais preocupada com a encenação do poder do que com a dignidade das vítimas. A política não é teatro; em contexto de catástrofe, por maioria de razão, cada gesto conta e cada palavra pesa.
O discurso foi um ponto baixo e demonstrativo da inabilidade e impreparação para lidar com crise e caos. Dizer, perante famílias em luto, «às famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida» revela uma profunda falta de noção. A formulação desloca, ainda que subtilmente, a responsabilidade para quem morreu. Não é apenas um erro semântico; é um erro moral. A empatia não é um acessório retórico – é um requisito mínimo de liderança. É evidente a ausência de empenho e capacidade... Fraco primeiro-ministro.
A desorganização e a falta de preparação estrutural no apoio às vítimas e na gestão da destruição material ficaram expostas. Faltou comando, faltou clareza, faltou prioridade. E aqui é inevitável notar a ausência de uma referência que muitos portugueses reconhecem: a falta que faz Henrique Gouveia e Melo. Não por nostalgia, mas porque, em momentos críticos, a cadeia de comando, a execução rigorosa e a responsabilização salvam tempo – e o tempo salva pessoas.
Há ainda um episódio que merece menção pela sua natureza grotesca. André Ventura também não resistiu à tentação de instrumentalizar a desgraça alheia para a fotografia. A distribuição de pequenos alimentos e meia dúzia de garrafas de água foi apresentada como gesto redentor, quando não passou de encenação. O mesmo que outrora tentou apagar um incêndio com um galho surge agora a ‘resolver’ uma catástrofe com água engarrafada. Não é ajuda; é propaganda. E em cenários de dor, a propaganda é obscena.
O mesmo padrão repetiu-se com António Leitão Amaro, que optou por um registo de auto-promoção fotográfica nas redes sociais, também a propósito da tempestade Kristin. A política transformada em álbum pessoal, no exato momento em que se exigia sobriedade e serviço público, é soberba. E a soberba, em gestão de crise, é irmã gémea da incompetência e da insensibilidade.
A crítica é simples e objetiva: governar não é aparecer; é resolver. Não é falar; é executar. Não é deslocar-se em pompa; é organizar recursos, proteger pessoas e reconstruir com método. Quando os decisores falham na forma, normalmente falham também no conteúdo. E os portugueses sentem-no – no terreno, nas casas destruídas, na lentidão das respostas, na ausência de coordenação.
Nem a propósito destas demonstrações de saber fazer bem feito e a propósito das eleições presidenciais do próximo domingo, ouve-se, nas ruas, a frase crua: «Venha o diabo e escolha». Traduz um desalento coletivo perante candidatos fracos, incapazes de inspirar confiança ou sentido de missão. Da minha perspetiva, essa leitura é dura, mas não é infundada. E porque “não sou diabo”, não vou escolher.
Desta vez, junto-me aos abstencionistas — não por indiferença, mas por recusa em legitimar a mediocridade.