Há países que falam alto porque têm poder. Há países que falam pouco porque têm prudência. E depois há países que falam pouco porque simplesmente não se atrevem a falar. Infelizmente, Portugal parece ter optado pela terceira categoria.
Numa fase em que o Médio Oriente volta a ocupar o centro da instabilidade global – com tensões militares, conflitos latentes e uma nova arquitetura de alianças a desenhar, seria razoável esperar que Portugal tivesse algo a dizer ou a propor. Mas não. A diplomacia portuguesa parece ter escolhido o papel mais discreto possível no teatro internacional: o de espectador educado. Portugal limita-se a acompanhar as posições de blocos maiores, preferencialmente em tom baixo e sem grande protagonismo.
O curioso é que esta modéstia estratégica não resulta de falta de capital histórico ou político. Muito pelo contrário. Portugal possui um património histórico singular na região do Golfo Pérsico e do Médio Oriente. Em cidades como Hormuz, Muscate ou Qeshm, sobrevivem ainda hoje vestígios materiais de uma presença portuguesa que marcou profundamente a história daquela região. Fortalezas, portos, traçados urbanos e referências culturais que integram hoje o património histórico local e que, em vários casos, foram reconhecidos como património de valor universal.
Esse legado não é apenas arqueologia. É capital diplomático reconhecido e acumulado ao longo de cinco séculos. Portugal é visto, em muitas capitais daquela região, como um país sem agenda imperial, sem conflitos históricos recentes e sem o peso das rivalidades estratégicas que condicionam outras potências ocidentais. Em linguagem diplomática: um mediador credível; contudo Portugal não utiliza esse capital único... É uma forma curiosa de gerir ativos estratégicos: não os usar.
A diplomacia, como a economia, também obedece a uma lógica meritocrática. Quem não exerce influência acaba por perdê-la. Portugal poderia – com inteligência, discrição e consistência – assumir um papel moderador em algumas das conversas mais difíceis do sistema internacional. Não resolveria conflitos seculares, certamente. Mas poderia facilitar canais de diálogo, construir pontes institucionais e reforçar a sua relevância internacional. Em vez disso, prefere a confortável neutralidade da irrelevância.
Mas a política portuguesa tem uma notável capacidade para surpreender – nem sempre pelas melhores razões. Veja-se o caso recente da política municipal em Lisboa. Enquanto uns optam pela neutralidade e ausência de protagonismo, outros escolhem a via do ‘chico espertismo’... Carlos Moedas decidiu recentemente reforçar a sua maioria municipal recorrendo a um método que merece alguma reflexão: foi aliciar vereadores eleitos por outros partidos, criando assim uma maioria sem ter de assumir alianças politicamente mais incómodas.
Oficialmente, trata-se de estabilidade governativa.
Na prática, a operação parece inspirar-se mais na velha metáfora rural da ‘raposa que, pela calada da noite, visita a capoeira’. A política tem destes cinismos e na minha opinião, uma enorme falta de ética. Carlos Moedas evita assim reconhecer qualquer proximidade ao CHEGA. É uma trapaça disfarçada de legitimidade.
No fundo, entre uma diplomacia internacional adormecida e uma política municipal em passos de raposa noturna, Portugal parece atravessar um momento curioso: tem ativos, tem posições e tem oportunidades – mas raramente decide utilizá-los com coragem, estratégia e sabedoria. É assim na diplomacia e é assim na gestão municipal de Lisboa.
CEO do Taguspark, Professor universitário