Antes da pocilga

Gosto de uma imagem simples. As cadeiras do poder são inevitavelmente sedutoras. Conferem estatuto, influência e capacidade de decidir. Mas uma cadeira nunca dignifica quem nela se senta. É o ocupante que dignifica a cadeira.

Há uma regra de ouro na gestão que não exige códigos complexos, regulamentos intermináveis ou tratados de ética. Exige apenas caráter: separar, de forma absoluta, os interesses da organização dos interesses pessoais de quem a dirige. É uma regra tão simples que qualquer gestor competente a compreende intuitivamente. O diretor de uma empresa, o presidente de uma câmara, o ministro, o administrador de uma fundação ou o dirigente de uma associação representam uma instituição, não a sua esfera privada. O poder que exercem não lhes pertence; foi-lhes confiado para servir um propósito coletivo.

É precisamente por isso que as fronteiras têm de ser intransponíveis.

Sempre que um responsável utiliza a influência que detém sobre um fornecedor, um cliente, um parceiro ou um trabalhador para obter qualquer vantagem pessoal, mesmo aparentemente pequena, a relação deixa de ser livre. Deixa de existir igualdade entre as partes. O outro sabe que está perante alguém que decide contratos, promoções, pagamentos, renovações ou oportunidades futuras. Mesmo que nunca seja feita uma ameaça explícita, o desequilíbrio existe.

É neste ponto que nasce aquilo a que poderíamos designar por assédio económico.

Não se trata apenas de corrupção, nem apenas de tráfico de influência. Trata-se de uma forma de pressão silenciosa que resulta da assimetria de poder. Quem depende profissionalmente de uma organização nunca consegue separar completamente um pedido privado feito por quem a dirige da possibilidade de esse pedido influenciar decisões futuras. A liberdade fica contaminada.

Por isso, a ética na gestão não consiste apenas em não cometer crimes. Consiste em evitar colocar terceiros perante dilemas que nunca deveriam existir.

A propósito da discussão pública que envolve o ministro da Administração Interna, Luís Neves, importa retirar uma conclusão que ultrapassa largamente qualquer caso concreto. O essencial não é o episódio em si, nem sequer o seu enquadramento jurídico. O essencial é recordar um princípio que devia ser absolutamente pacífico: quem exerce poder institucional não deve criar circunstâncias em que os seus interesses privados possam ser confundidos com o exercício das suas funções.

É extraordinariamente simples evitar essas situações. Não se fazem pedidos pessoais a fornecedores da organização. Não se envolvem subordinados em assuntos particulares. Não se utilizam contactos institucionais para resolver problemas privados. Não se aceita que alguém possa sentir-se condicionado pela posição que ocupamos. Tudo isto é gestão básica.

Quando surgem justificações sofisticadas para explicar aquilo que deveria ser evidente, normalmente já se entrou no território das racionalizações. E as racionalizações são frequentemente o primeiro passo para a degradação ética. As instituições fortes constroem-se precisamente sobre esta disciplina quotidiana. Não sobre grandes discursos acerca da transparência, mas sobre milhares de pequenas decisões em que quem decide escolhe proteger a instituição antes de proteger a sua conveniência pessoal.

É curioso observar que muitos dirigentes acreditam que o verdadeiro privilégio do poder reside na possibilidade de abrir portas para si próprios. É exatamente o contrário.

O maior privilégio de ocupar um cargo de responsabilidade é poder fechar essas portas quando conduzem aos nossos interesses particulares. É isso que distingue a autoridade da apropriação do poder.

Gosto de uma imagem simples. As cadeiras do poder são inevitavelmente sedutoras. Conferem estatuto, influência e capacidade de decidir. Mas uma cadeira nunca dignifica quem nela se senta. É o ocupante que dignifica a cadeira.

Quem aprecia verdadeiramente a cadeira não a utiliza para si. Utiliza-a para servir melhor a organização que representa.

Quem, pelo contrário, começa a ver a cadeira como uma extensão da sua vida privada inicia um caminho perigoso. Um caminho em que cada pequena exceção parece inocente, cada favor parece insignificante e cada confusão parece justificável.

É precisamente assim que se entra na pocilga.

Nunca de uma só vez.

Sempre passo a passo, confundindo o público com o privado, o dever com a conveniência, a autoridade com o privilégio.

A ética na gestão não começa nos tribunais nem termina nas leis. Começa muito antes, no momento em que cada responsável decide que existem fronteiras que simplesmente não atravessa. É essa disciplina, mais do que qualquer código de conduta, que protege as organizações, os trabalhadores, os fornecedores e, sobretudo, a confiança dos cidadãos.

CEO do Taguspark, Professor universitário