quarta-feira, 22 jul. 2026

Eu nasci em 75!

Ao fim de cinquenta anos, volto, infelizmente, a ver imagens ao vivo que pensava já terem desaparecido da nossa realidade.

Lembro-me, quando era criança, de ver as pessoas ao lixo. Literalmente, via gente dentro dos grandes contentores – daquele tempo – a procurarem comida que outros tenham deitado fora. 

Lembro-me dos homens que andavam ao papelão. Lembro-me, também, daqueles que andavam ao ferro. Procuravam nos cantos das ruas, nas bermas dos caixotes do lixo.

Eu vivia numa periferia de Lisboa, um bairro ilegal, no concelho de Loures. Era um bairro pobre, com gente que tinha construído casas com o suor do seu rosto, nos anos sessenta. Os meus avós construíram uma casa assim: de noite, com os filhos, levantavam as paredes da casa e ao início da manhã, os serviços da Câmara Municipal de Loures deitavam abaixo o que tinha sido levantado. Na noite seguinte, era necessário voltar a levantar o que tinha sido deitado abaixo.

Estávamos nos anos setenta: os tais anos terríveis da ‘ditadura’ do Estado Novo. Era muita a pobreza. As pessoas tinham vindo das aldeias, outras das colónias ultramarinas, para se estabelecerem ali. 

Nos anos oitenta, já em democracia, lembro-me da ação que a Cáritas exercia junto das pessoas no Catujal – nome do lugar onde nasci e vivi. Traziam roupas, comida e muitas outras coisas. 

Entrei na escola em 1981. Tinha, então, seis anos. A meio da manhã, a professora Idalina dava-nos leite com chocolate. Era o chamado leite da CEE, que era distribuído pelas escolas nas zonas mais pobres do país.

Graças a Deus nunca passei fome. O meu pai trabalhava num escritório e a minha mãe era costureira. Chegou a trabalhar em fábricas, mas a maior parte do tempo fazia trabalho na sua casa, o que me permitiu ter sido criado junto da minha mãe. 

Então, ouvia-se falar do problema que existia no norte do país. Falava-se que as crianças comiam, ao pequeno almoço, antes de ir para a escola, sopas de cavalo cansado. Nunca comi, mas parece que era uma mistura de pão com vinho e açúcar. 

O país evoluiu… vieram os prósperos anos 90! Entrámos na CEE, atual União Europeia. Os subsídios eram mais do que muito para fazerem evoluir o país. Nunca se viveu tão bem como naquele tempo. Foi, realmente, um tempo maravilhoso. Criaram-se novas empresas, abriram-se novos acessos que aumentaram a mobilidade entre nós. 

Chegou o Euro, por fim, no ano 2000. Começámos a distribuir dinheiro por todos… inventámos o RSI de então, que se chamava Rendimento Mínimo Garantido. Em menos de dez anos, com o Sócrates, estávamos a apertar cada vez mais o cinto. Tinha nome de filósofo, mas de filosofia tinha pouca. 

A reforma por tempo de trabalho ou por idade começa-se a degradar. Trabalhamos cada vez mais e cada vez até mais tarde. E hoje… sim… hoje… o que vemos não é muito animador.

Ao fim de cinquenta anos, volto, infelizmente, a ver imagens ao vivo que pensava já terem desaparecido da nossa realidade. Hoje, em Lisboa, mesmo no centro, vejo a todas as horas centenas de rapazes, com a cabeça dentro dos caixotes do lixo a procurarem coisas que sejam capazes de fazer dinheiro.

Rasgam os sacos, espalham pelo chão o lixo. Às nove da noite, há ruas da cidade de Lisboa que estão cheias de lixo. Agora, então, que inventaram esta coisa dos dez cêntimos por garrafa de plástico, vemos filas de sem-abrigo que repescaram garrafas por todo o lado para irem ao supermercado obterem o vale. 

Por mais que queira, os supermercados junto da minha casa, no centro de Lisboa, estão cheios de rapazes que querem trocar garrafas por vales e vales por dinheiro. É triste… É a falência do Estado Social… na realidade… voltámos ao um estado novo do Estado Social.