Há mais vida para além Chega!

Eu convido qualquer que seja o político de esquerda ou de direita a acompanhar-me durante um dia. Eu mostro-lhe o que realmente o ‘povo’ pensa. Eu mostro as condições de vida das pessoas, a incapacidade do Estado em dar respostas e os milhões de euros gastos públicos em coisas que a ninguém serve

Sinceramente, nos meus cinquenta anos de vida, nunca esperei chegar a este momento e ver o sistema político a colapsar. Só há uma coisa que me apetece dizer face às últimas eleições: «Parem de falar do Ventura! Parem de falar do Chega! Já Chega!».

Chegámos ao dia das últimas eleições com muito pouco. Os comentários a que assisto são apenas sobre socialismo e extrema-direita. Parece que não há uma ideia de cada um dos candidatos para o país. Parece, até, que se esqueceram de quem são os verdadeiros protagonistas das eleições, isto é, nós. Sim, porque os Presidentes passam, mas nós permanecemos.

O sistema democrático não assenta nos partidos políticos, mas no ‘demos’, isto é, no ‘povo’. O sistema democrático é apenas um meio de diálogo para aferir as ideias e a vontade do povo. Jornalistas, comentadores e políticos perscrutam as palavras dos candidatos, as reações dos partidos políticos e as sondagens sobre as intenções de voto.

A democracia dos últimos cinco anos ficou profundamente abalada, porque está a assistir a uma ‘revolução partidária’. O Chega foi fundado em Abril de 2019 e cinco anos depois está em ascensão crescente. Dever-nos-ia preocupar, não a ascensão do chega, mas as razões profundas que estão na base desta escolha ‘democrática’.

Nunca pensei, alguma vez, ouvir da boca de democratas como Ana Gomes a dizer que «os povos não têm sempre razão». Isto saiu-lhe pela boca, mas é o que ela pensa e é o que todos pensam. O povo só tem razão quando vota no ‘meu’ partido.

Na realidade, a democracia não é tanto um sistema de representatividade política, mas um sistema dialógico que exige de todos a capacidade de ouvir. Ninguém imagina que os alentejanos sejam antidemocráticos de extrema-direita! Então, devemos ouvir o que os eleitores daquela região estão a dizer ao deixarem de votar na extrema esquerda, o Partido Comunista, para passarem a votar num partido de direita, o Chega. Terão os alentejanos sido colonizados nestes cinco anos por ETs de extrema-direita?

Este diálogo, esse sim, que faz parte do ‘jogo’ democrático não deveria estar preocupado em erradicar o Chega, mas em ouvir o povo. Estas campanhas falseadas que imitam as presidências aberta de Mário Soares ou Paulo Portas que entrava pelas feiras a contactar as pessoas.

É necessário que todos os intervenientes na democracia consigam abrir os olhos e os ouvidos para ver e ouvir o que o ‘povo’ está a viver. Os debates e a campanha foram tudo menos esclarecedores. Foi uma amálgama de acusações ideológicas, interessantes para analistas políticos e investigadores sociais, mas incapazes de empatia com os problemas reais.

Eu convido qualquer que seja o político de esquerda ou de direita a acompanhar-me durante um dia. Eu mostro-lhe o que realmente o ‘povo’ pensa. Eu mostro as condições de vida das pessoas, a incapacidade do Estado em dar respostas e os milhões de euros gastos públicos em coisas que a ninguém serve.

Acredito que Luís Montenegro foi dos poucos políticos que compreendeu a ‘palavra’ dada pelo ‘povo’ aos políticos nas últimas eleições legislativas. Começou por tomar decisões políticas e sociais louváveis na interpretação da vontade do povo. Temo, porém, que alguma coisa possa mudar na sociedade… Porque em Portugal, nada dá em nada… Temos belas leis para não se cumprirem…

Eu aguardo e espero que estes quinze dias possam ser esclarecedores para votarmos de forma esclarecida, como uma afirmação democrática da vontade do povo na condução da vida dos portugueses. Sim… porque é para isso que elegemos os diferentes órgão: conduzir a nossa vida.

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