O mês de agosto tem no imaginário de todos uma imagem de férias! Pelo menos, em Portugal! Mesmo para aqueles que se fazem a sua pausa do trabalho durante os meses de julho ou setembro, agosto é um mês obrigatório e simbólico das férias.
Tinha um amigo padre que gostava de tirar férias em setembro, porque dizia que julho e agosto a cidade estava vazia e, por isso, andava-se bem em Lisboa e havia sempre muito pouco trabalho no gabinete (note-se que não era padre de paróquia). Tirar férias em setembro significava um prolongamento das férias…
Sinto, cada vez mais, que as férias não são um luxo, mas um bem mais do que necessário. As férias são um imperativo moral exigido para que haja um equilíbrio da saúde mental, pelo menos para quem optou ou, simplesmente, não tem outra hipótese a não ser de viver nas grandes cidades.
Andar de carro para chegar ao trabalho é um luxo para poucos. Mas os poucos que vão de carro para o trabalho e que vivem em Lisboa terão de tomar grandes doses de ‘diazepam’, porque as horas que passam no transito são horas de sono, horas de trabalho, horas de convívio com a família que se perdem. À ida para o trabalho e à vinda do trabalho.
Há, no entanto, os que, felizmente, não têm de passar pelas tormentas do trânsito, porque não dinheiro para se darem a esses luxos, mas, infelizmente, têm de passar por outras tormentas: os autocarros, os metros e os comboios que não chegam a horas, ou que, simplesmente, não chegam ou, então, os transportes que melhor se deveriam chamar de ‘latas de sardinha’.
É impossível não haver mais problemas depressivos ou de ansiedade, porque a vida nas cidades só para falar da saga que é o percurso entre a casa e o trabalho daria para fazer um filme senão dramático, pelo menos melodramático. Em cima deste percurso acrescentemos a vida familiar, a vida laboral e a vida social. Que tempo resta para a vida pessoal? Que tempo resta para a vida interior? Para olhar para dentro de si mesmo? Quanto tempo me resta para entrar dentro de mim?
Procurei reunir as vezes em que Jesus se retirou de ‘férias’ para entrar dentro de si, para se encontrar com o Pai – isto é – com Deus: quinze vezes. É impressionante, porque temos muito claras as ações de Jesus no meio do povo, mas muito pouco falamos das ações de Jesus a fazer as coisas inúteis aos olhos do mundo contemporâneo.
Jesus foi conduzido ao deserto, retira-se de barco para um lugar solitário, sobe a um monte para orar e ficar ali só. Também, de madrugada, levanta-se e vai para um lugar deserto para orar e convida também os discípulos a que O acompanhassem a um lugar deserto para descarem com Ele um pouco.
Dei estes exemplos para ilustrar a quantidades de vezes que são referidos nos evangelhos os momentos em que Jesus se retirava para descansar.
Nós não somos Deus!
Diz a Escritura, logo no primeiro capítulo do livro do Génesis que Deus fez tudo o que existe e que no sexto dia fez o homem e a mulher à sua imagem e semelhança e no sétimo dia descansou das obras começadas.
Impressiona-me, sempre, ao visitar Israel, perceber o esforço que todos os judeus fazem por respeitar o sábado (shabat, que significa em português ‘descanso’). Não ligar, nem desligar luzes ou bicos do fogão ou chamar elevadores. Não tirar fotografias ou atender chamadas de telemóvel. Nada!
Porque não experimentamos este ano fazer uma experiência de quinze dias de ‘shabat’ (descanso) nas nossas férias?