terça-feira, 09 jun. 2026

Encíclica: entre o tecnológico, o social e o humano

Comer e beber são atividades humanas boas e necessárias, porém, é no excesso e no uso destemperado da comida ou da bebida que podemos encontrar a malignidade da atividade.

A encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, sobre o pensamento social cristão e, de forma particular, abordando nela o problema do crescimento da Inteligência Artificial (IA) suscitou múltiplas e variadas leituras. 

Há um entusiasmo controlado no mundo por este Papa. É um homem desconhecido para a maioria de nós – como, aliás, o era Francisco – e não tem abordado temas fraturantes ou polémicos. A escolha do tema, porém, para se debruçar na sua primeira encíclica despertou em muitos o desejo de conhecerem o seu pensamento. 

A encíclica Magnifica Humanitas, porém, não fala só de IA e, temos de o dizer, a sua base é uma base de pensamento profundamente teológico, isto é, a doutrina social da Igreja não é um pensamento filosófico, mas procura fazer o que toda a teologia faz: procurar na própria ciência teológica uma luz para as realidades humanas. 

Não faria nenhum sentido que o pensamento social cristão se baseasse no pensamento de uma corrente filosófica ou na rejeição da mesma. Há, seguramente, muitas realidades com que nos confrontamos hoje e que precisam de ser iluminadas por uma palavra que está acima de todas as palavras e de uma racionalidade que está na base de todas as racionalidades. 

É natural que alguns se questionem sobre a oportunidade de busca de uma luz na teologia para, por exemplo, iluminar o tema da IA. Realmente, sendo um fenómeno tecnológico tão recente, não poderemos imaginar que as Sagradas Escrituras ou a Teologia se tenham alguma vez referido a esta realidade. 

Então, porque vamos procurar na teologia algo que venha iluminar uma realidade de que as Sagradas Escrituras lhe são completamente alheias? Que espécie de luz podem as Escrituras trazer às realidades tecnológicas tão avançadas? 

Naturalmente, devemos dizer que a teologia não tem nada a dizer sobre a arquitetura ou a elaboração e organização do desenvolvimento da IA. Tem, porém, uma luz que incide sobre aquele que usa esta mesma IA, isto é, o homem. 

Apesar de considerarmos a teologia como uma ciência sobre Deus, na realidade ela fala-nos muito mais sobre o homem. Quanto mais procuramos o conhecimento de Deus, mais luz encontramos para compreendermos o homem. 

As realidades tecnológicas não são boas nem más, porque são apenas um prolongamento do próprio homem para desenvolver tarefas ou aprofundar outros conhecimentos. O que é passível de se considerar na sua bondade ou malignidade é o uso que o homem faz daquele conhecimento. 

Comer e beber são atividades humanas boas e necessárias, porém, é no excesso e no uso destemperado da comida ou da bebida que podemos encontrar a malignidade da atividade.

Para temperar o homem, a Igreja apoiou-se neste ponto no que veio a chamar pecados capitais – gula – para que o homem não viva escravo mas livre. Assim o é quanto à IA: ela não é boa nem é má. O uso, ou melhor, o mau uso que faremos dela é que vai determinar o seu futuro.