É domingo! Levanto-me, como sempre, para celebrar as três missas nas paróquias. Santiago! Socorro! São Cristóvão! Uma espécie de Rali Paroquial, de quatro horas!
Sinceramente, quando chego, à terceira missa de domingo - mas sexta missa dominical, contando com as de sábado - digo para mim mesmo: ‘Cala-te, Edgar, que já não te posso ouvir’. Porque na verdade, se pensarmos, do ponto de vista do trabalho, são apenas quatro horas, mas do ponto de vista da entrega, são quatro horas de oração. Trata-se de um ofício de louvor, onde o sacrifício e a presença de Cristo se tornam presentes.
Às vezes, depois das missas, não me apetece fazer almoço e procuro um restaurante. Há um quiosque, na Avenida da Liberdade - o segundo à direita, quem sobe para o Marquês de Pombal, que faz umas tostas maravilhosas! Algumas vezes, como uma tosta e bebo umas cervejas e fico a descansar e a estudar ou a responder a emails.
Num desses domingos, sentado, a descansar, na tal esplanada, pelas cinco horas da tarde, ouço uma manifestação, estilo ‘Free Palestine’. É normal, porque a Avenida da Liberdade é um inferno todos os domingos. Corridas! Manifestações! Feiras! Mas esta manifestação - com aquelas cornetas aos gritos que já nem os padres usam nas procissões - nunca mais se ia embora.
As manifestações modernas, são uma espécie de procissões sagradas, em que ninguém pode tocar, porque são sagradas. Ninguém pode atacar a liberdade de se manifestar publicamente. Aliás, vivemos numa democracia e, por isso: ‘O povo é quem mais ordena!’. Acontece que não é o povo quem mais ordena, é algum povo que ordena para desordenar o resto do povo.
Ao final de uma hora tinha a cabeça em água. Decido ir ver que manifestação se trata! Estava uma rapaziada com dois ou três megafones e umas panelas, em frente de uma loja - não direi qual é a loja, para não dar força à causa destes grupos. Olho para os cartazes! ‘Pelos direitos dos animais’. Caramba! E eu não tenho o direito de descansar? Tenho de levar com isto?
Decido entrar na loja para ver o que se passa. A porta está trancada! O segurança abre gentilmente a porta para eu entrar. Dentro, sou recebido por um colaborador, amabilíssimo, que me oferece um café. Pergunto o que se passa e respondem-me apenas: Estão a manifestar-se!
Fico a falar durante algum tempo e volto para casa. No caminho, encontro dois polícias que estavam a guardar os manifestantes, não vá aparecer algum tigre e os coma. Dirijo-me aos agentes que dizem que, no papel, têm autorização até às 18h30! Inacreditável… ainda iam bater tachos e andar aos berros, pelos direitos dos animais, mais meia hora.
Apetecia-me continuar na esplanada, mas não dá mesmo! Vou para casa! No caminho, penso numa viagem que fiz a Itália. Num domingo, de carro, faço o percurso da cidade de Crotone até Bari. Umas boas horas de carro. Naturalmente, sinto as necessidades que todos nós sentimos. Procuro uma casa de banho, mas não há nada aberto!
Como é possível? Bomba atrás de bomba de gasolina, está tudo fechado. Os cafés que se encontram ao pé das bombas, também estão fechados. Decido entrar nos povoados, junto às praias: Tudo fechado! Encontro, por fim, um LIDL, que está aberto. Compro algumas coisas para ir comendo ao almoço, durante a viagem, mas, pasme-se: O WC está fechado! Envio, então, uma mensagem para o meu amigo italiano a contar o sucedido, que me responde: «É Domingo!». Vi, então, que, excetuando os restaurantes, tudo está fechado. Tudo!
Neste domingo, em casa, deitado no sofá, continuo a pensar: ‘Esta é a diferença entre a civilização e a barbárie’.