quarta-feira, 11 fev. 2026

Inovação sem pedigree

Métricas, chancelas de qualidade, rankings e avaliações prévias passaram a dominar a investigação, impedindo frequentemente que ideias inovadoras possam ser testadas.

A malária é conhecida desde a antiguidade. Uma das conquistas mais decisivas na luta contra esta doença global foi, sem dúvida, a descoberta da artemisina pela cientista chinesa Tu Youyou e pela sua equipa. Desde então, a artemisina tornou-se um dos antimaláricos mais importantes e eficazes alguma vez desenvolvidos. Para lá do impacto terapêutico, esta descoberta foi invulgar por desafiar várias normas dominantes do sistema científico instituído. Em particular, recorreu a conhecimentos fora da ciência formal, afastou-se de protocolos estabelecidos e avançou sem o amparo do prestígio académico ou da validação internacional. É difícil imaginar que uma descoberta deste tipo fosse hoje possível num sistema científico que frequentemente exige provas de excelência antes mesmo de permitir que a investigação comece.

A malária manifesta-se por episódios recorrentes de febre alta, calafrios, anemia e fadiga extrema, podendo evoluir para complicações graves como falência de órgãos, coma e morte. Os primeiros relatos históricos compatíveis com a doença remontam a textos médicos milenares da China e da Grécia antiga. Evidências arqueológicas e genéticas sugerem ainda que a malária acompanha as populações humanas desde a pré-história. No final do século XIX, Charles Laveran demonstrou que a doença era causada por um protozoário do género Plasmodium e Ronald Ross provou que era transmitida por mosquitos do género Anopheles. Durante a primeira metade do séc. XX a malária foi tratada principalmente com quinina e derivados, apesar da toxicidade e do surgimento progressivo de resistências [1].

No final da década de 1960, o recrudescimento da malária na China e em regiões vizinhas levou o governo a lançar o chamado «Projeto 523», com o objetivo de encontrar tratamentos eficazes [2]. Tu Youyou, então uma farmacologista praticamente desconhecida da Academia Chinesa de Medicina Tradicional, integrou a iniciativa com a missão de identificar novos fármacos antimaláricos. Partindo do conhecimento empírico acumulado ao longo de séculos, a sua equipa analisou mais de duas mil preparações à base de plantas até concentrar esforços na artemísia-doce (Artemisia annua). Embora as propriedades antimaláricas desta planta humilde estivessem descritas em textos da medicina tradicional chinesa dos séculos IV e XVI, os extratos então testados produziam resultados inconsistentes. Foi uma releitura atenta desses textos clássicos que levou Tu Youyou a adotar um método de extração a baixas temperaturas — algo até então pouco utilizado — do qual resultou um extrato promissor. Estudos em animais confirmariam, de forma inequívoca, a sua eficácia antimalárica, primeiro em modelos de malária em roedores e, mais tarde, em primatas. O composto ativo da planta, a artemisinina, seria isolado pela equipa de Tu Youyou em 1972. Os resultados só seriam tornados públicos anos mais tarde e, desde então, a artemisinina e os seus derivados tornaram-se os antimaláricos mais importantes e eficazes da atualidade [2]. O reconhecimento só chegaria em 2015, com a atribuição do Prémio Nobel da Medicina a Tu Youyou, décadas depois de a descoberta já ter salvo milhões de vidas [3].

A descoberta da artemisinina contrariou muitos dos princípios que regem o funcionamento do sistema científico institucional, tanto então como agora. Tu Youyou não tinha doutoramento, não possuía formação no estrangeiro e trabalhou sem o amparo do prestígio académico, do reconhecimento internacional ou da validação prévia da comunidade científica. Hoje, seria difícil imaginar que um jovem investigador sem credenciais, prestígio ou o beneplácito de colegas influentes conseguisse sequer reunir as condições para conduzir uma investigação equivalente. Por outro lado, a descoberta surgiu no contexto de um programa militar secreto e coletivista, com publicações de circulação limitada, anónimas ou assinadas em grupo, e que diluíam o contributo individual. Em contraste, a ciência contemporânea é dominada por métricas de visibilidade, autoria individual e procura de reconhecimento imediato. Neste ecossistema, o marketing académico tornou-se um instrumento central para garantir financiamento, prestígio e progressão na carreira. Finalmente, os textos de medicina tradicional a que Tu Youyou recorreu como fonte de hipóteses, dados ou inspiração para novos protocolos experimentais situam-se nos antípodas da literatura científica formal, consagrada e tida como séria.

O modo de fazer ciência contemporâneo garante rigor metodológico, critérios claros de validação e um padrão consistente de qualidade no conhecimento produzido. Mas essa mesma estrutura conduziu a uma hiper-burocratização do valor científico, em que métricas, chancelas de qualidade, rankings e avaliações prévias passaram a dominar a investigação, impedindo frequentemente que ideias inovadoras possam ser testadas. Na sua obsessão pela excelência e controlo administrativo, o sistema científico tende a premiar a previsibilidade de resultados, as metas antecipáveis, a ortodoxia metodológica e a internacionalização como indicador de legitimidade. Neste ambiente, as ideias inovadoras genuinamente estranhas raramente sobrevivem ao primeiro contacto com os revisores. Um projeto como o de Tu Youyou seria hoje criticado por não se apoiar em hipóteses suportadas por dados preliminares, por recorrer a fontes de conhecimento não científicas, por assumir riscos pouco justificáveis e por ser liderado por um investigador sem prestígio ou currículo competitivo.

A descoberta da artemisinina mostra que a inovação científica não nasce apenas dentro dos limites dos sistemas instituídos, e que abordagens não convencionais, investigadores sem prestígio académico e fontes empíricas frequentemente associadas à “não-ciência” podem, em circunstâncias raras, mas decisivas, gerar avanços transformadores. Talvez um sistema científico mais saudável deva permitir, de vez em quando, que o improvável aconteça.


Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa

 

[1] Carter, R., Mendis, K. N. (2002). Evolutionary and historical aspects of the burden of malaria. Clinical Microbiology Reviews, 15: 564–594

[2] Wang, J. et al., (2019) Artemisinin, the magic drug discovered from traditional chinese medicine. Engineering, 5: 32-39.

[3] McKenna, P. (2011) Nobel Prize goes to modest woman who beat malaria for China. New Scientist. 9 novembro.