terça-feira, 18 ago. 2026

A Outra Vida do Ovo

Durante séculos, olhámos para o ovo como alimento. A biotecnologia ensinou-nos a vê-lo como uma fábrica.

O ovo. Pequeno, simples, omnipresente. Consumido como alimento em quantidades industriais, é difícil imaginar que tenha contribuído de forma significativa para a medicina moderna. Na verdade, longe da cozinha, o ovo de galinha fertilizado transformou-se numa das plataformas biotecnológicas mais inesperadas e provavelmente menos conhecidas do público. Concebido por virologistas para resolver um problema experimental específico, o método de multiplicação de vírus em ovos tornou-se, em poucas décadas, num dos pilares da produção mundial de vacinas contra a gripe e outros vírus. Hoje, o papel do ovo continua a ser reinventado pela biotecnologia, com o foco a desviar-se para a produção de proteínas terapêuticas na clara do ovo de galinhas geneticamente modificadas. Tudo indica assim que o humilde ovo continuará a desempenhar um papel singular na medicina do futuro.

O ovo fertilizado constitui um sistema privilegiado para estudar a formação da vida. O filósofo grego Aristóteles observou-o sistematicamente na tentativa de perceber como se desenvolviam o coração, os vasos sanguíneos e outros órgãos do embrião de galinha. Na sequência desses estudos pioneiros, muitos cientistas recorreram ao ovo como modelo experimental para estabelecer os princípios gerais do desenvolvimento embrionário. No início do século XX, o ovo fertilizado começou também a ser manipulado ativamente, tornando-se num dos sistemas de estudo por excelência da embriologia.

Foi neste contexto que, em 1931, Ernest Goodpasture e Alice Miles Woodruff deram o passo seguinte, lançando as bases da sua utilização como ferramenta biotecnológica. À época, os dois patologistas americanos da Universidade de Vanderbilt debatiam-se com o problema de como cultivar o vírus da varíola aviária. Ao contrário das bactérias, os vírus não se multiplicam em meios de cultura artificiais, necessitando sempre de células vivas para se replicarem. Essa dependência obrigava ao uso de pintainhos recém-nascidos como hospedeiros, mas o processo era complexo, limitado e pouco reprodutível. Então, e de forma inovadora, Goodpasture e Woodruff demonstraram ser possível propagar vírus em ovos de galinha fertilizados [1]. O processo era simples. Após alguns dias de incubação, o vírus era inoculado através de um orifício na casca do ovo, diretamente na membrana que envolve o embrião. Retomada a incubação, o vírus multiplicava-se rapidamente nesta membrana, podendo ser recolhido alguns dias depois. O ovo embrionado de galinha emergia assim como um sistema biológico acessível e manipulável, que permitia a replicação de muitos vírus de interesse médico.

A descoberta de Goodpasture e Woodruff ultrapassou rapidamente os limites do laboratório e encontrou uma aplicação industrial decisiva. Na década de 30, Macfarlane Burnet mostrou que o vírus da gripe humana crescia excecionalmente bem em ovos fertilizados [2]. Pouco depois, os virologistas Thomas Francis Jr. e Jonas Salk adotaram a nova tecnologia de replicação viral desenvolvendo a primeira vacina eficaz contra a gripe [2,3]. Testada com sucesso nas forças armadas americanas durante a Segunda Guerra Mundial, a vacina da gripe foi introduzida na prática clínica em 1945. A necessidade de produzir rapidamente grandes quantidades de vacinas para utilização civil impulsionou a industrialização da tecnologia, que viria a proteger milhões de pessoas em todo o mundo. O processo revelou-se tão bem-sucedido que, quase um século depois, continua a sustentar mais de 80% da capacidade mundial de produção de vacinas contra a gripe, correspondente a cerca de 1,5 mil milhões de doses sazonais por ano [4].

Ao oferecer um ambiente estéril, rico em células suscetíveis à infeção, de baixo custo e fácil manipulação, o ovo fertilizado reduziu drasticamente a necessidade de recorrer a animais de laboratório. Os problemas éticos, porém, não desapareceram, passando agora a centrar-se na utilização de embriões viáveis de galinha. A principal questão reside em determinar se, e a partir de que estádio do desenvolvimento, o embrião é capaz de percecionar estímulos dolorosos. Esta preocupação é relevante para muitos já que centenas de milhões de embriões são utilizados e descartados anualmente. Para além das questões éticas, persistem também limitações práticas e de segurança. Entre estas incluem-se potenciais reações alérgicas associadas a componentes residuais do ovo e o risco de contaminações inerente à utilização de sistemas biológicos. Finalmente, a dependência de uma cadeia especializada no fornecimento de ovos fertilizados, os longos períodos de incubação e as limitações de escalabilidade tornam esta tecnologia menos adaptável às necessidades atuais de produção. A tendência atual passa, por isso, pela transição progressiva para culturas celulares in vitro, mais previsíveis, flexíveis e facilmente escaláveis [4].

Mas a história do ovo na medicina não termina com as vacinas virais. Hoje, é possível reprogramar geneticamente a galinha para produzir no ovo moléculas de elevado valor terapêutico que são posteriormente recuperadas e purificadas a partir da clara. Esta abordagem já deixou o laboratório e chegou ao mercado, com proteínas terapêuticas produzidas em ovos de galinhas transgénicas utilizadas no tratamento de uma doença metabólica rara em humanos e de anemia renal em gatos. O ovo deixou assim de ser apenas um meio de multiplicação viral e passou a funcionar como um sistema biológico de produção de medicamentos sofisticados.

Durante séculos, olhámos para o ovo como alimento. A biotecnologia ensinou-nos a vê-lo como uma fábrica. De uma ferramenta experimental usada por embriologistas a uma plataforma industrial de produção de vacinas e proteínas terapêuticas, o ovo é um exemplo notável de como um objeto aparentemente banal pode adquirir um valor tecnológico, médico e social inesperado. A sua outra vida, invisível e inesperada, tornou-se uma das histórias mais singulares da inovação tecnológica. Duarte Miguel Prazeres Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa

[1] Woodruff, A.M., Goodpasture, E.W. (1931). The susceptibility of the chorio-allantoic membrane of chick embryos to infection with the fowl-pox vírus. Am. J. Pathol. 7: 209–222.5.

[2] Barberis, I., Myles, P., Ault, S.K., Bragazzi, N.L., Martini, M. (2016). History and evolution of influenza control through vaccination: from the first monovalent vaccine to universal vaccines. J. Prev. Med. Hyg.. 57: E115-E120.

[3] Salk, J.E., Pearson, H.E., Brown, P.N., Francis, T. (1945). Protective effect of vaccination against inudced influenza. J. Clin. Invest.. 24: 547-53.

[4] Taaffe, J., Goldin, S., Lambach, P., Sparrow, E. (2023). Global production capacity of seasonal and pandemic influenza vaccines in 2023. Vaccine. 51:126839.