sexta-feira, 06 fev. 2026

Uma república, não um império

Para a compreensão da política externa de Trump.

A captura de Nicolás Maduro foi o resultado de uma operação militar espectacular, com uma mobilização de forças e meios extraordinária. O mundo colou-se aos ecrãs estupefacto e as imagens de helicópteros de combate a sobrevoar Caracas pareciam saídas de uma grande produção de Hollywood.

A sua detenção pela DEA, devido às acusações de narcotráfico, lembrava a de Noriega, em 1990, com a incrível coincidência de ambos terem sido detidos no dia 3 de Janeiro!

Tanto os que prontamente celebraram esta «libertação» como os que criticaram esta «violação do Direito Internacional» estavam de acordo num ponto importante: Trump deixara de ser «isolacionista». Mas seria mesmo assim?

Na conferência de imprensa após a operação, o Presidente norte-americano assumiu a Doutrina Monroe, numa referência à política defendida por James Monroe em 1823, que advertia as potências europeias a não interferirem nos assuntos do Hemisfério Ocidental, respeitando-o como esfera de influência dos Estados Unidos. Mas Trump usou mesmo o termo «Donroe Doctrine», a contracção de Donald e Monroe, usado pelo New York Post como manchete há um ano.

Em 1999, Patrick J. Buchanan, figura influente na esfera conservadora e que havia sido conselheiro de Nixon, Ford e Reagan, publicava um dos seus ensaios mais marcantes. A Republic, not an Empire, era um manifesto político que cortava a direito para uma América às direitas, definindo a sua posição no mundo segundo os seus próprios interesses. Buchanan apoiava-se na História da política externa dos EUA para apontar um novo rumo.

O «isolacionismo» era criticado como um mito útil para descrever a política externa norte-americana desde George Washington até Woodrow Wilson ter levado o país à Primeira Guerra Mundial. O termo pejorativo era usado pelos globalistas contra o «destino da República», a que devia ser «restaurada àqueles que levavam no coração a grande tradição da América Primeiro». Era a independência, não o isolamento, a tradição americana.

Buchanan ditava, por isso, que um próximo Presidente devia «reafirmar a posição dos EUA de que a Doutrina Monroe é a pedra angular da política externa americana e que os Estados Unidos considerarão inaceitável que qualquer regime hostil crie um bastião neste hemisfério». Quanto à questão ideológica, defendia que os Estados Unidos deviam «renunciar a qualquer direito ou intenção de intervir em qualquer país latino-americano que não nos ameace nem aos seus vizinhos». Isto porque, «em muitas ocasiões, os países agora democráticos da América Latina voltaram a regimes autoritários, militares e civis, de esquerda e de direita». Assim, defendia Buchanan, «desde que esses regimes não se alinhem com potências hostis e não nos ameacem a nós ou aos seus vizinhos, devem ser deixados a lidar com os seus próprios problemas internos». A única excepção era se os EUA fossem directamente afectados, concluindo: «Não precisamos de aliados militares neste hemisfério para nos defendermos e não devemos prometer que defenderemos todas as nações daqui. Não há nenhum interesse vital dos Estados Unidos no tipo de regime que governa o Cone Sul da América do Sul.»

O facto de muitas das propostas políticas de Buchanan serem vistas como um trumpismo avant la lettre, ou um «proto-trumpismo», não é novidade. Mas a acção na Venezuela parece confirmar que o actual Presidente dos EUA está a seguir o guião daquele que em tempos foi o seu adversário.

No ano 2000, Donald Trump e Pat Buchanan enfrentaram-se nas primárias do Reform Party, fundado por Ross Perot cinco anos antes, na nomeação do candidato às eleições presidenciais. Foi uma luta breve, mas muito acesa e bastante baixa, em que Trump atacou Buchanan com tudo e sem pudores, chegando mesmo a classificá-lo como um «neo-nazi». Trump acabaria por retirar-se e Buchanan tornar-se-ia o candidato, mas o mais interessante aconteceria onze anos depois, quando Trump fez algo totalmente contrário ao seu feitio – pediu desculpas! Inesperadamente, ligou a Buchanan e disse-lhe que tinha errado ao considerá-lo um racista.

A Republic, not an Empire, foi o livro-programa de Buchanan para essas primárias. Trump, por seu lado, apresentava o seu, The America We Deserve, co-escrito por Dave Shiflett. São duas obras que, como vemos hoje, traçaram as políticas da actual Administração norte-americana.

Se considerarmos que Trump segue esta estratégia, entendemos perfeitamente por que se referiu directamente ao controlo dos recursos na região, nomeadamente do petróleo. Além deste aspecto fulcral, na Venezuela, os EUA impõem-se à Rússia, que aí tinha assessores militares e sistemas integrados de defesa aérea, e ao Irão, que aí tinha uma parceria na construção e desenvolvimento de drones, fazendo cair qualquer ilusão de «multipolarismo». Mais importante, impõem-se à China, o seu rival hegemónico, no controlo da extracção de minerais críticos para a produção de armamento. Em vez de enveredarem numa cruzada mundial pela liberdade, os EUA defendem os seus interesses geopolíticos, intervindo apenas para os defender.

Mais que concordar ou reprovar, interessa compreender a política externa de Trump e o que esta significa para nós, ou seja, para a Europa. Neste ponto, o livro de Buchanan é fundamental.

Recordando o chamado Farewell Address, a carta que George Washington escreveu no final de seu segundo mandato presidencial, na iminência das eleições de 1796 e antes de se retirar da vida política, Pat Buchanan diz que a mensagem desta «não era isolar a América da Europa, mas mantê-la independente da Europa. Ficar de fora de guerras estrangeiras, advertiu Washington; estas são a grande ameaça à liberdade, e os Estados Unidos não têm sentido se não for pela preservação da liberdade. Olhar para Oeste, para as montanhas, o grande rio além delas, as planícies, o Pacífico. É aí que está o nosso destino. A Europa é o passado».

Para nós, a Europa é o futuro, aquele que cabe aos Europeus definir e assegurar.