Li algures que cada um tem o seu próprio Nietzsche e, recusando obviamente as interpretações disparatadas que infelizmente abundam, considero que, naturalmente, o filósofo e a sua obra nos tocam de forma única e pessoal. O meu primeiro encontro com o autor de O Anti-Cristo (1888) foi no final do liceu, quando as edições de bolso da Europa-América, em que a qualidade do papel era tão má como a tradução, me acompanhavam. Os anos passaram e as leituras somaram-se, mas o magnetismo manteve-se. Verifiquei ao longo da vida que Nietzsche exerce uma atracção em especial nos mais jovens, mas que perdura com o avançar da idade, mesmo junto dos que dele discordam.
Para além de filósofo, Nietzsche foi compositor, poeta e filólogo. A Filologia Clássica foi o foco dos seus primeiros estudos e a disciplina para a qual foi convidado como professor pela Universidade de Basileia, em 1869. O jovem e brilhante docente iniciou um período muito intenso e variado, da participação como voluntário na Guerra Franco-Prussiana à amizade com Wagner e a sua mulher Cosima, passando pela publicação de O Nascimento da Tragédia (1872).
Afligido pela doença e atormentado por enxaquecas crónicas, Nietzsche deixou em 1879 o seu lugar de professor e, em Junho do mesmo ano, foi pela primeira vez para Sils-Maria, no Cantão dos Grisões, em convalescença. Num encontro perfeito, descobriu a sua «Terra Prometida», sentiu-se melhor e a inspiração para escrever voltou.
Quando soube que a casa onde o filósofo ali ficava hospedado ainda existia e preservava a memória do seu famoso ocupante, decidi que um dia a visitaria para descobrir o encanto do local em que Nietzsche pensara e escrevera grande parte das suas obras. A Nietzsche-Haus tem uma parte museológica e quartos para hóspedes, nomeadamente investigadores, além de uma biblioteca. Este aspecto de centro cultural vivo aumentou ainda mais o meu interesse.
O Inverno de 2019 foi invulgarmente quente e a neve rareou na Suíça, pelo que a estrada até Sils-Maria foi marcada por enormes montanhas nuas de uma pedra fria que reflectia os raios do Sol como se expulsasse o seu calor. As paisagens suíças são conhecidas pela sua beleza, mas nesta região são de suster a respiração. Chegado à vila, deleitado pela arquitectura típica e pelas placas escritas em romanche, rapidamente avistei o edifício recuado.
A casa é sóbria, mas acolhedora e o revestimento interior em madeira dá-nos a sensação de um calor natural. No piso térreo, à entrada, há uma divisão que é um pequeno museu, outra que funciona como loja, com livros e outros objectos, e ao fundo uma cozinha que funciona como pequena sala de refeições. Mais à frente, numa ampliação da casa, está a biblioteca de Oscar Levy, tradutor de Nietzsche para inglês, e uma divisão onde estão os móveis do escritório do filósofo enquanto era professor em Basileia. Demorei-me a ver os livros, sentei-me e tomei notas enquanto balbuciava para mim próprio em voz alta, perante o sorriso cúmplice do anfitrião.
Ao subir as escadas desdenhei uns quadros horrorosos pintados por um hóspede e que estavam expostos temporariamente. No piso superior, à esquerda, está o quarto onde Nietzsche ficava hospedado praticamente inalterado, que é de uma simplicidade tocante. As paredes do corredor que leva aos restantes quartos têm fotografias e textos de escritores que foram inspirados por Sils-Maria.
A conversa com o responsável pelo espaço arrastou-se, por entre a compra de alguns livros, folhetos e postais, até ao exterior. Falámos de escritores suíços, do Terramoto de Lisboa, daquela região e outra vez de Nietzsche, até que nos despedimos calorosamente.
Em 1883, numa carta ao seu amigo Peter Gast, Nietzsche escreveu: «Agora estou de novo reunido com a minha amada Sils-Maria no Engandine, o local onde um dia gostaria de morrer.» Partiu dezassete anos depois, em Weimar, com 55 anos, onde estava aos cuidados da irmã, Elisabeth, depois de ter sofrido um colapso mental. Repito amiúde, em tom irónico, que a Suíça é um bom local para morrer, tal como se comprova pelo elevado número de escritores e artistas que escolheram o país para os seus últimos dias. Mas desta vez, depois de capturado pela impressionante beleza de Sils-Maria, fui apanhado pela minha própria ironia.