Que simboliza Rojava?

A administração autónoma curda no nordeste da Síria está em risco perante a vontade de controlo de Ahmed Hussein al-Shar’a.

 No final de Janeiro, o habitual bulício vespertino da Bahnhofstrasse, a principal avenida no centro de Zurique, foi interrompido por uma longa e ruidosa marcha. O aparato policial era imponente, foi mobilizado um veículo com canhões de água, outro com uma grande câmara especial para registar tudo, além de dezenas de polícias de intervenção, devidamente equipados, bem como outros à paisana, mas identificados com braçadeiras.

Naturalmente, a manifestação atraiu a atenção dos transeuntes e à cabeça seguia um tractor agrícola com um atrelado que exibia uma grande faixa, dizendo: «Viva a revolução feminina de Rojava.» Ao seu lado seguiam mulheres trajando orgulhosamente o tradicional lenço curdo.

Parei para ver o cortejo, até porque a luta de autodeterminação dos curdos, além de legítima, é importante para a Europa. É tanto uma barreira ao islamismo como um entrave às ambições neo-otomanas e a recente ofensiva das forças armadas da nova Síria é, por isso, preocupante. Mas o espectáculo foi uma decepção…

Dos vários sectores que marcharam, destacava-se o do YPG, as Unidades de Protecção Popular, o braço armado do PYD, o Partido de União Democrática, dos curdos sírios, afiliado ao PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão, considerado como organização terrorista pela Turquia, pelos EUA, mas também pela UE. A partir daí, o desfile de foices e martelos foi contínuo, com comunistas de todas as tendências. Do KKP, o Partido Comunista do Curdistão, marxista-leninista, ao do MLKP, o Partido Comunista Marxista-Leninista, de inspiração albanesa. Mas também de múltiplas organizações suíças de extremistas, entre colectivos feministas, grupos anticapitalistas, grevistas climáticos, organizações antifascistas e autoproclamadas revolucionárias. Um verdadeiro Festival da Eurovisão do extremismo de esquerda!

Sem surpresa, além de gritarem palavras de ordem, deitaram foguetes, acenderam tochas e ainda provocaram danos materiais menores. Apesar de parte dos manifestantes serem pacíficos e de se verem famílias com crianças pequenas, havia sectores agressivos e desafiadores, sempre controlados de perto pela polícia.

Entende-se que as organizações de extrema-esquerda queiram aproveitar a luta dos curdos para pôr em prática as suas utopias. O jornal comunista l’Humanité fez mesmo capa com uma manchete que proclamava: «Em Rojava, a utopia assediada.» Mas será que esta é a melhor via para a autodeterminação de um povo? Obviamente que não. Aliás, a experiência de movimentos independentistas e separatistas que simultaneamente proclamavam o internacionalismo foi um desastre. A utopia «feminista, laica e multiétnica» sobrepõe-se à preservação da identidade curda? Que é mais importante, um sistema político ou um povo?

Por fim, os curdos queixam-se, legitimamente, de que foram usados pelos EUA e agora abandonados. A revista Le Point, numa edição com uma reportagem na frente, afirma sem rodeios que esta foi uma «traição do Ocidente». No entanto, em vez de se considerar que tal se deve apenas à actual Administração, é melhor recordar o que dizia o Professor Jorge Borges de Macedo: «O mundo está cheio de cemitérios de amigos dos americanos».