A mais longa viagem que fiz na Floresta Negra foi há uma década e o caminho literário, sempre atrás dos meus autores, teve como principais paragens Todtnauberg, Meßkirch, Sigmaringen e Wilflingen. Como o foco estava em Heidegger e Jünger, a passagem por Sigmaringen foi breve, mas marcou a certeza de um regresso.
Queria conhecer o percurso de Céline, que aqui esteve no período em que a cidade foi a capital da França exilada no final da Segunda Guerra Mundial, na agonia do Governo de Vichy, e que o genial escritor francês narrou no inesquecível De Castelo em Castelo, publicado em 1957.
É irónico notar que Claudio Magris, no seu Danúbio, se centra em Céline no capítulo dedicado a Sigmaringen e na «tragicómica esquizofrenia da História» que ele ali viveu. Magris, que no capítulo anterior denunciara «a desgraça fascista de Heidegger», continua neste o seu catecismo ideológico, escrevendo que «Céline deixou-se ofuscar pela revelação do mal»…
Que injustiça! Não se pode reduzir Sigmaringen aos acontecimentos devastadores de meados do século XX. O castelo tem origens na Alta Idade Média, é a residência dos Hohenzollern desde o século XVI e, no meu caso, enquanto português, ignorar as ligações a Portugal, nomeadamente a união entre as Casas de Hohenzollern-Sigmaringen e de Bragança, é imperdoável.
Assim, há dois anos, voltei para ver a cidade ao pormenor, com um roteiro detalhado previamente definido. Felizmente, em 2021, havia sido inaugurado o Karls Hotel, na margem norte do Danúbio, onde fiquei num quarto cuja varanda fita o castelo que se funde com a rocha, numa vista extraordinária. A seguir à recepção, notei com agrado e alguma surpresa os elementos históricos com alusões portuguesas na decoração.
O Castelo de Sigmaringen, que pertence aos príncipes Karl e Katharina de Hohenzollern, está aberto ao público e é um local turístico muito visitado. Naturalmente, gostei de ver as várias referências a Portugal e como a importância da ligação com o nosso país não foi esquecida. A história é relativamente conhecida. D. Pedro V casou em 1858 com a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen. Já a sua irmã, a infanta D. Antónia de Bragança, casou com o príncipe Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen, irmão de D. Estefânia, em 1861. Mais tarde, D. Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen casou aqui com D. Manuel II, já depois do fim da monarquia em Portugal, em 1913.
Esta ligação com o nosso país foi homenageada com a impressionante Galeria Portuguesa, construída na reconstrução que se seguiu ao incêndio que em 1893 destruiu uma das alas.
O ponto alto do museu é a magnífica colecção de armas cuja exposição no Castelo de Sigmaringen se deve ao príncipe Karl Anton de Hohenzollern, pai da nossa D. Estefânia. Reúne cerca de três mil peças e traça a evolução do armamento do século XIV ao século XX. Além do valor incalculável, tanto histórico como monetário, é um deleite para os apreciadores.
Na despedida, não resisti a uma ida ao Café Seelos para provar a famosa Hohenzollern-Torte, criada em 1961 pelo mestre pasteleiro Konrad Huthmacher, por ocasião do 70.º aniversário do príncipe Friedrich Viktor. Neste bolo as fatias reproduzem o padrão branco e negro do brasão dos Hohenzollern e, enquanto me deliciava, pensei como em Sigmaringen estiveram tanto franceses que sonharam outra Europa como portugueses crentes na continuação de um reino. Os primeiros, exilados que acreditaram na vitória quando a derrota era já certa; os segundos, fiéis a um rei exilado de um país tornado república. Contrastes da História que, ao contrário deste bolo, nunca é a preto e branco...