A decisão de Marine Le Pen de ficar na corrida para o Eliseu foi anunciada na sequência do acórdão proferido no passado dia 7 de Julho, quanto ao recurso no caso dos assistentes dos eurodeputados do Front national (FN). Apesar de a decisão confirmar a condenação, Marine recuperou a sua elegibilidade, uma vez que apenas lhe foram aplicados 15 meses de inelegibilidade efectiva, pena que começou a cumprir logo na primeira instância. Marine afirmou ainda que interporá recurso desta decisão, o que significa que a execução da pena de prisão fica suspensa. Assim, evita a sua detenção domiciliária com pulseira electrónica, o que lhe permite, enquanto aguarda a decisão, fazer a sua campanha sem limitações.
Ainda que o Tribunal tenha anunciado que poderá proferir a decisão sobre este recurso o mais tardar antes do início do mês de Abril de 2027, isto é, pouco antes da primeira volta, Marine decidiu apostar tudo, contrariando aqueles que viam em Jordan Bardella, o seu delfim, o candidato mais promissor.
Recorde-se que Marine Le Pen sucedeu ao seu pai, Jean-Marie, como presidente do FN em 2011 e liderou o partido durante uma década. Durante esse período, foi candidata à Presidência da República francesa em 2012, não passando da primeira volta porque ficou em terceiro lugar com 17,9%, e, em 2017, obteve 33,9% dos votos na segunda volta, contra Emmanuel Macron. Em 2021, deixou a liderança do partido, que passara a chamar-se Rassemblement national (RN) em 2018, ao jovem Bardella, para se dedicar à campanha como candidata às eleições presidenciais de 2022. Foi de novo derrotada por Macron na segunda volta, mas desta vez por com 41,46% dos votos.
Será que é desta vez que chega à Presidência? As previsões eleitorais assim o indicam. De acordo com uma sondagem do Ifop, realizada para o canal televisivo LCI e o jornal Le Figaro nas horas que se seguiram ao anúncio da sua candidatura, Marine obteria 36% das intenções de voto na primeira volta, ou seja, mais quatro pontos do que em meados de Junho, e venceria contra qualquer adversário na segunda volta. Também uma sondagem da OpinionWay para o jornal Les Échos e a Radio Classique revelou que a líder parlamentar do RN lidera claramente as intenções de voto na primeira volta, muito à frente de qualquer outro candidato. Bruno Jeanbart, vice-presidente da OpinionWay, explicou: «Marine Le Pen encontra-se em níveis comparáveis aos melhores resultados de Jordan Bardella, quando este era avaliado. Não se verificou qualquer efeito negativo da sua condenação. Pelo contrário, o anúncio da sua candidatura teve um impacto positivo. O acontecimento marcante foi o anúncio da sua candidatura, não a sua condenação.»
Este vento que favorece a candidata do RN reflecte um desejo de mudança da maioria da sociedade francesa, que não vê no Eliseu a representação da sua vontade política. Mas se há algo que se confirma é que não há mortes políticas anunciadas… Assim, ao escolher como slogan da sua campanha «Pela França, o renascimento», Marine Le Pen parece estar a referir-se também a si própria.
No entanto, se há outra certeza na política é a de que não há, igualmente, vitórias antecipadas. Por isso, a campanha vai ser seguramente dura e, ainda que possamos estar certos da passagem de Marine à segunda volta, continua tudo em aberto.
Por fim, há um aspecto muito importante no caso de uma vitória de Marine Le Pen, referido pela sua sobrinha, Marion Maréchal, numa entrevista feita por Darius Rochebin, na LCI, no passado dia 8 de Julho. A eurodeputada do partido Identité Libertés (IDL), membro dos Reformistas e Conservadores Europeus, o grupo político no Parlamento Europeu a que pertence o partido italiano Fratelli d’Italia (FdI), contou que, quando felicitou a sua tia pela candidatura, lhe disse que há nestas eleições «três voltas»: uma presidencial, uma legislativa e uma europeia. Assim, quanto à última, segundo Marion, se Giorgia Meloni for reconduzida nas eleições de Abril do próximo ano, há a possibilidade de construir um entendimento franco-italiano que poderá mudar a política europeia. Perante o cenário de Marine Le Pen e Giorgia Meloni estarem simultaneamente no poder nos seus países, Marion Maréchal foi clara: «Poderíamos revolucionar a Europa a partir do interior.»