Martin Heidegger nasceu em Meßkirch, no Baden-Württemberg, a 26 de Setembro de 1889, e morreu com 86 anos em Freiburg, cidade do mesmo Land, em 1976. Gosto de pensar que, pese embora a minha tenra idade nos seus últimos anos de vida, chegámos a coexistir no mesmo tempo. Conhecer a obra de um autor dá-nos uma falsa sensação de familiaridade e, ciente da importância dos locais, decidi que um dia haveria de visitá-lo, em sua casa.
Diriam os nossos antepassados que se tratou de um bom augúrio, porque a minha primeira ida à sua terra natal teve uma coincidência inacreditável. De viagem marcada e com o plano traçado, foi dias antes da partida que, numa livraria na Baixa de Lisboa, comprei mais um livro sobre Heidegger e, ao folheá-lo, me saltou aos olhos a data da sua morte. Dado que estávamos em 2016, passavam exactamente 40 anos do seu falecimento e, como se não bastasse, o planeado era visitar a sua cabana na Floresta Negra no dia 26 de Maio.
A estrada até Todtnauberg é sinuosa e a floresta vai-se adensando à medida que subimos, até que, avistada a placa de madeira gravada que indica o nome da terra, se abrem horizontes. Dali vê-se a vila na sua extensão e as montanhas envolventes; ao fundo, a norte, viam-se nuvens que se deslocavam a grande velocidade, indicando que a brisa amena que soprava podia mudar a qualquer momento. Aqui é possível ver as quatro estações do ano num dia e é, de facto, um local em que se sente a comunhão com a Natureza.
Foi no Verão de 1922 que terminou a construção da cabana de Heidegger em Todtnauberg e que o filósofo começou a usá-la como local preferencial de trabalho. Aqui que escreveu grande parte de Ser e Tempo (1927), para referir a mais conhecida das suas obras, além de ter sido o local onde recebeu muitas visitas. É natural olhar para Die Hütte, como Heidegger chamava a esta casa que se funde com a montanha, como um refúgio, mas foi também uma torre de vigia. Heidegger criou uma intimidade emocional e intelectual com o edifício, como escreveu Adam Sharr no seu excelente Heidegger’s Hut, onde afirma que, para o filósofo, «Todtnauberg foi mais do que uma localização física». Foi aqui que pensou e escreveu durante mais de 50 anos numa ligação estreita com a paisagem.
Encontrar o Martin-Heidegger-Rundweg, o caminho circundante à montanha em que se encontra a cabana, foi fácil porque está bem indicado. Mas onde estaria a casa, seria este um dos caminhos que não levam a parte alguma?... Enquanto comparava o mapa turístico com o do telemóvel e chegava à conclusão, com a minha mulher, de que «só podia ser naquele sentido», vi aproximar-se um casal. Ela era norte-americana e leccionava na Universidade de Freiburg, a tese dela tinha sido sobre Heidegger e a técnica, já ele era um adolescente alemão, filho do casal que a hospedava. Ficou com um sorriso de espanto por ali ver dois portugueses, mais ainda quando lhe disse que era o dia do quadragésimo aniversário da morte do filósofo que questionou o Ser. Ela tinha tentado encontrar a cabana, mas sem sucesso. Desistira e, como se aproximava a hora de almoço, ia com o seu jovem companheiro comer uma pizza.
Seria a casa assim tão oculta? Trezentos metros andados, a minha mulher apontou para a direita, ao alto, e exclamou: «Está ali!» Estava, de facto, e a felicidade irradiou-nos. Mas como subir até lá? Continuámos o caminho, passámos o albergue da juventude, fomos apreciando a paisagem e seguindo as indicações. Numa zona de floresta mais cerrada encontrámos uma passagem que levava a um conjunto de casas. Não se via vivalma, apenas as vacas que nos vieram cumprimentar, mostrando-nos que éramos bem-vindos. Reconhecemos imediatamente as traseiras da Hütte e a minha mulher passou rapidamente a cerca, chamando-me, enquanto eu tirava a mochila dos ombros. Demos a volta à casa e lembrei-me do que havia lido sobre ela. Olhei para a fonte e vi a fotografia a preto e branco do filósofo carregando um balde, fomos até lá e a água baptizou-nos. Em frente à janela de outra conhecida fotografia é possível olhar para as montanhas e voar, enquanto o lugar nos atrai. Era hora de partir, mas quando saímos entreolhámo-nos e perguntámos em uníssono: «Vamos voltar?» Voltámos e reencontrámos a serenidade.