quinta-feira, 14 mai. 2026

Em busca de Edward Hopper

A descoberta do inconfundível pintor norte-americano conduziu-me a uma procura incessante que culminaria na capital francesa.

No dia 15 deste mês cumpre-se mais um aniversário da morte do pintor realista norte-americano Edward Hopper (1882-1962). Não é um número redondo, tão propício a evocações, mas a leitura da longa e aturada biografia íntima feita por Gail Levin recordou-me a minha descoberta deste gigante, tanto no talento como no seu 1,96 m de altura. Hopper teve uma vida longa e hoje, que atravesso aceleradamente a meia-idade, não parece que tenha morrido assim há tanto tempo... 

Da mesma forma, custa a crer que tenha sido há mais de uma dúzia de anos que a capital francesa teve o privilégio de receber a magnífica exposição retrospectiva, patente nas Galerias Nacionais Grand Palais de 10 de Outubro de 2012 até 3 de Fevereiro de 2013, atingindo o impressionante número de cerca de 785 mil visitantes. 

Cheguei a Hopper, ainda adolescente, através do seu quadro mais conhecido, Nighthawks, de 1942, de uma forma inusitada. Ferris Bueller's Day Off (1986), que entre nós recebeu como título O Rei dos Gazeteiros, foi uma das comédias juvenis emblemáticas da década de 80 do século passado. A acção decorre em Chicago, cidade em que o realizador, John Hughes, passou a sua adolescência, e que este homenageia, especialmente numa cena extraordinária de que os meus amigos não gostavam nem compreendiam, mas que sempre apreciei e me intrigou. Interrompendo o ritmo frenético do filme, Hughes leva os três jovens protagonistas ao Art Institute of Chicago, escolhendo para banda sonora uma versão instrumental de Please, Please, Please, Let Me Get What I Want, de The Smiths. Das várias obras de arte aí mostradas, Nighthawks foi a que mais me marcou e não descansei até descobrir quem era o seu autor e que mais tinha pintado.

O enigmático diner prendeu para sempre a minha atenção e curiosidade. Quem seriam aquelas «aves nocturnas»? O que as levaria ali? Havia uma atracção irresistível naquela solidão misteriosa. Os anos passaram e fui conhecendo melhor, a pouco e pouco, o trabalho de Hopper. No entanto, embora já apreciador, só vi pela primeira vez quadros dele expostos numa visita a Madrid, ao Museu Thyssen-Bornemisza, onde me deleitei especialmente com o estupendo Hotel Room, de 1931.  

A notícia da retrospectiva em Paris, ainda por cima com a vinda de Nighthawks à Europa – algo que os dedos de uma mão chegam para contar – fez-me reservar automaticamente uma viagem. Fui em finais de Novembro de 2012, o tempo estava bastante frio e via-se já a feira de Natal nos Campos Elísios. Chegado à entrada do Grand Palais, fui informado por uma funcionária que o tempo médio de espera, no exterior, era de uma hora e meia. Mas nada me podia demover do meu objectivo, nem mesmo a chuva ocasional que acabou por encharcar-me enquanto aguardava solitária e pacientemente. 

O ambiente no museu era de grande movimento e o público lotava as primeiras salas da enorme exposição, principalmente aquelas onde estavam expostos os quadros que Hopper pintou em Paris, com paisagens locais, numa das poucas deslocações que fez ao estrangeiro, ainda jovem. 

Confesso que descurei um pouco essa primeira parte e também as dedicadas à vida durante a Grande Depressão e ao trabalho de Hopper como ilustrador, algo que o próprio não gostava, mas que acabou por ser o seu ganha-pão durante uns tempos. Fui rapidamente ao encontro de Nighthawks e a experiência foi única. Não deixou de ser uma sensação estranha ver finalmente um dos meus quadros favoritos, que só conhecia através da imagem; agora, a coisa estava à minha frente. Mas nem este momento único me impediu de apreciar, durante quase um dia, intervalando apenas para almoçar, toda a maravilhosa reunião da obra de um dos pintores que mais aprecio. 

O trabalho de Hopper é completo. Não são apenas a solidão e o realismo que marcam a sua obra impressionante. Outro elemento muito importante é a luz, com os efeitos das sombras, mas também as cores características. Além das pinturas com elementos humanos, Edward Hopper é igualmente um artista magistral a representar paisagens, tanto naturais como construídas. É quase como se atingíssemos nestes recortes da vida observada uma realidade mais que real. Esta exposição foi um daqueles momentos da vida pelos quais se anseia. Felizmente, por vezes realizamos tais desejos e a memória não se apaga.