segunda-feira, 14 set. 2026

Eclipse familiar

O magnetismo dos fenómenos astronómicos extraordinários desperta a curiosidade e as memórias.

Cada vez que há um eclipse lembro-me do livro de Mark Twain, A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court, de 1889, onde Hank Morgan, a personagem principal, um engenheiro norte-americano vindo do futuro, usa os seus conhecimentos científicos para escapar a uma condenação à morte e para impor as suas condições ao monarca. A inspiração de Twain para esta passagem teria vindo de um episódio semelhante ocorrido com Colombo na Jamaica, em 1504, no qual o navegador, argumentando que o seu Deus cristão era mais poderoso que os locais e capaz de esconder o Sol, se aproveitou de um eclipse, no dia 29 de Fevereiro, para conseguir que os nativos fornecessem provisões à sua tripulação até à chegada de um navio de salvamento espanhol.

Além do interesse literário, esta história marca profundamente a minha vida e formação pessoal. Foi principalmente o meu avô materno, oficial de Marinha, homem viajado e conhecedor do mundo, quem me despertou o gosto pelo conhecimento, pela História e pela Geografia, pelas viagens e pela descoberta, pelas línguas e a sua familiaridade, pela leitura e pelos livros, e me transmitiu os valores fundamentais que ainda hoje me guiam. Desde a minha tenra idade motivou-me a procurar e a saber mais. Ensinou-me a consultar dicionários e enciclopédias, a ler mapas e gráficos, a jogar xadrez e a acertar um relógio digital, transmitindo-me uma autonomia preciosa. Mas devo-lhe a mais importante das lições: a do valor inestimável da curiosidade.

Não é assim de estranhar que me tenha passado o vício dos livros e ironizo amiúde que se tratou do contágio de uma doença incurável. Fui pela primeira vez a um alfarrabista com o meu avô, onde me deixou sozinho com a missão de escolher um volume que leria. Assim fiz e a minha escolha caiu exactamente na edição ilustrada de Um Americano na Corte do Rei Artur, publicada em 1978, que me deixou maravilhado, mas cujo exemplar infelizmente perderia.

Quando o li, no início da adolescência, ocorreu um eclipse solar parcial visível de Lisboa. Uma conjugação perfeita! À época observei-o brevemente com o meu avô, usando como filtro velhas radiografias e recordei entusiasmado o episódio do eclipse. Nesse momento tão feliz, estava longe de imaginar que ele morreria pouco depois.

Ainda que o choque da sua morte me tenha abalado profundamente, acabei por senti-lo como um eclipse, porque o Sol regressa sempre. Também o meu avô não desapareceu totalmente e continuou presente em tantos ensinamentos e memórias…

Quando saímos das grandes cidades, onde circulamos encadeados pela iluminação artificial, vemos o céu estrelado que nos atrai. Este magnetismo é a recordação presente de que os nossos antepassados viviam com os astros como orientação. As viagens ou a agricultura estavam, assim, ligadas a um movimento superior. Cá em baixo, as pessoas ligavam-se à sua terra e à sua comunidade, celebrando a linhagem.

Instantes extraordinários como o eclipse que se aproxima são o momento para nos religarmos. Sol Invictus!