No dia 22 de Outubro de 2023 realizaram-se eleições federais na Suíça e de toda a propaganda política houve uma proposta que se destacou. Perante a falta de controlo da imigração, prevista na Constituição, o SVP-UDC (Partido Popular Suíço-União Democrática do Centro) alertava para uma «explosão demográfica» e opunha-se a uma «Suíça de 10 milhões de habitantes», como se podia ler nos inúmeros outdoors espalhados pelo país.
O caso suíço deve ser bem estudado pelos países europeus que agora enfrentam ondas imigratórias maciças, especialmente por aqueles que acreditam que é possível controlá-las legal ou formalmente, nomeadamente através de legalizações. Recordo um factor essencial nesta questão, amiúde ignorado, para o qual apontava certeiramente o pensador francês Guillaume Faye: a implacável lógica dos números.
Ora, acima de qualquer outra preocupação, é exactamente o número que está em causa no referendo que terá lugar no próximo dia 14 de Junho. Face ao aumento exponencial de habitantes na Suíça, nomeadamente por meio da imigração, o SVP-UDC propôs a votação aquilo a que chama a «iniciativa pela durabilidade», impondo um limite da população a dez milhões de habitantes, para que, nas suas palavras, «a nossa Suíça continue a Suíça». Naturalmente, à esquerda, tal proposta motivou acesa oposição. O tema é de tal forma divisivo que as sondagens não indicam qualquer maioria clara.
No entanto, além da discussão deste tema tão pertinente e da sua submissão ao escrutínio popular, houve outra surpresa para quem no resto da Europa está habituado ao pensamento único, que apenas vê na imigração uma oportunidade sem quaisquer aspectos negativos.
Em meados de Maio, o Conselho Federal revelou um estudo encomendado pela Secretaria de Estado das Migrações em que se analisa as consequências de uma restrição à imigração. Fazendo uma projecção até ao ano 2100, o estudo reconhece várias desvantagens, mas chegou à conclusão de que também há igualmente vantagens. Vejamos.
As três principais consequências negativas apontadas são: a falta de mão-de-obra em determinados sectores, nomeadamente a saúde e os serviços sociais, a indústria, a construção civil, a hotelaria e restauração e os serviços informáticos; menos dinheiro para o AVS, base do sistema de previdência social; e o fim da livre circulação de pessoas que existe desde 2002, o que implicaria, consequentemente, o fim dos acordos bilaterais com a União Europeia.
Já os três aspectos positivos são: o alívio no mercado imobiliário, porque a imigração contribuiu para o aumento significativo dos preços; uma menor pressão sobre o Ambiente, pois a redução da população diminuiria o consumo global de recursos e a ocupação do solo, bem como a necessidade de infra-estruturas de transportes e a produção de resíduos; e, por fim, uma poupança nas prestações complementares e na assistência social, uma vez que os estrangeiros recorrem a elas com maior frequência, além de, no domínio da educação, diminuir a necessidade de infra-estruturas escolares.
De 2002 até hoje a Suíça ganhou cerca de 1,8 milhões de habitantes, o que se reflectiu num aumento dos consumidores e a consequente dinamização económica. Mas o reverso da medalha é uma crise na habitação, uma sobrecarga nas infra-estruturas do país e do sistema de saúde, além de uma diminuição dos espaços naturais com a explosão da construção. Será que continuar a deixar entrar até cem mil pessoas por ano trará verdadeira riqueza e qualidade de vida?
Mais do que uma questão migratória, o que está realmente em causa é um modelo de sociedade. Através da definição de um número, de um limite, os suíços podem decidir um rumo sustentável para o seu país.