Há dois anos, num soalheiro domingo de Verão, fui finalmente aos arredores da capital francesa à procura das derradeiras moradas de Céline, fiel à minha crença de que os nossos autores não vivem apenas nos livros. Por Meudon passaram igualmente outros nomes do meu apreço, como Wagner, Rodin ou Rilke, mas essas voltas ficaram guardadas para uma ocasião futura.
O médico Louis-Ferdinand Destouches (1894-1961) escolheu o nome da sua avó materna como pseudónimo na publicação do magistral Viagem ao Fim da Noite, em 1932. Mas a sua carreira literária, tão tumultuosa como a sua vida e sulfurosa como as suas posições políticas, levá-lo-ia à classificação de «escritor maldito», pese embora o seu inegável talento.
Comecei pelo fim e o recatado Cimetière des Longs Réages foi o meu primeiro destino. Não há qualquer indicação e a campa do Dr. Destouches, que enquanto viveu em Meudon dava consultas gratuitas aos mais necessitados, demorou a encontrar. Em 2019, a sua mulher, Lucette, juntou-se a ele. Morreu com a inacreditável idade de 107 anos, mas depois da morte do marido continuou a sua vida na casa de ambos a dar aulas de dança clássica. Na pedra tumular, apreciei o veleiro que encima o nome e o pseudónimo do tão inovador como polémico autor, mas é o ano da morte da sua mulher que se destaca, porque o seu nome e ano de nascimento já estavam gravados há muito. A prova de um amor que nunca desapareceu…
A paragem seguinte foi a villa Maïtou, uma moradia em estilo Louis-Philippe construída no século XIX e com uma área de 351 m², uma propriedade bem apetecível nesta era da especulação imobiliária. A casa, que foi comprada por um vizinho com o objectivo de arrendá-la, estava em obras profundas de remodelação total. Uma intervenção para a tornar em mais um imóvel sobrevalorizado desta comuna que se caracteriza pela tranquilidade e a «qualidade de vida», além de ter votado em massa em Macron nas últimas presidenciais.
Havia pouca circulação de peões, além de alguns joggers esporádicos, e avancei para a rampa que conduz à casa, contrariando o sinal de «entrada proibida». Espreitei o estaleiro e, apesar do aparato, reconheci imediatamente o local que tantas vezes havia visto em fotografias. Lembrei-me em especial daquelas em que Céline está rodeado dos seus animais de estimação. Registei-o como uma despedida, porque depois da destruição anterior provocada por dois incêndios, que deixaram em cinzas a biblioteca e não só, com esta renovação nada ali restará de Céline... Enquanto me afastava, dissipou-se em mim o descontentamento por não ter sido transformada em museu.
Sem surpresa, depois desta visita, foi do marcante início de Morte a Crédito de que me lembrei: «Aqui estamos mais uma vez sozinhos. Tudo isto é tão lento, tão pesado, tão triste... Dentro de pouco tempo estarei velho. Tudo então se acabará. Tanta gente que passou aqui por este quarto. Disseram coisas. Não me disseram grande coisa. Foram-se embora. Envelheceram, tornaram-se lentos e miseráveis, cada qual no seu recanto da terra».