Ao som de Nietzsche

O filósofo alemão, além de filólogo e poeta, foi um óptimo pianista e ainda compositor.

«Desde os meus dezassete anos, Friedrich Nietzsche nunca me abandonou.» A frase podia ser minha, mas é a primeira de um tão pequeno como curioso livro. Nietzsche au piano, de Frédéric Pajak, ilustrado pelo autor, publicado em 2024, debruça-se sobre a importância da música na vida do filósofo alemão, que de tenra idade tocava piano e compunha desde os 14 anos. 

Só descobri este aspecto biográfico fundamental tardiamente, porque nas minhas ávidas leituras adolescentes centrava-me no homem que ensinava a filosofar com o martelo. Ainda que este funcionasse como um diapasão na detecção de ídolos ocos, salientando a importância do som e a presença da cultura musical do autor. Simultaneamente, para melhor compreender os seus livros críticos de Richard Wagner, compositor cuja obra desde muito cedo me atraiu e maravilhou, recorri ao estudo do percurso de vida de ambos. 

A descoberta e a leitura do livro do escritor e desenhador franco-suíço coincidiram com uma das minhas peregrinações aos lugares dos meus autores. Há dois anos, num frio final de Abril, visitei finalmente o Museu Richard Wagner, perto de Lucerna, acompanhado pelo opúsculo de Pajak. 

O espaço, que abriu portas como museu em 1933 e foi alvo de várias renovações, é a magnífica mansão, em Tribschen, onde Wagner viveu entre 1866 e 1872 e dela fez o seu Idyll, nas margens do Lago dos Quatro Cantões. Foi durante este período que se casou com Cosima e que nasceu o filho varão de ambos, Siegfried. Aqui receberia importantes convidados e amigos, como Luís II da Baviera, Franz Liszt, seu sogro, Friedrich Nietzsche, à época jovem professor em Basileia e muito próximo do casal Wagner, entre muitos outros.

A casa isolada eleva-se no topo de um morro, de onde as vistas são soberbas. A entrada faz-se por uma sala com objectos pessoais, partituras, publicações e a máscara mortuária de Wagner, dispostos com o auxílio de uma cronologia biográfica. Mas, no piso inferior, é a sala de estar que mais atrai. Está ricamente decorada, destacando-se nas paredes os retratos do rei bávaro e do compositor alemão, mas é também acolhedora, já que nos podemos sentar nos cadeirões junto ao piano, como se fossemos convidados. 

Numa das salas adjacentes, depois de admirar várias pinturas alusivas à mitologia germânica, deparo-me com uma estante de livros onde se encontra o exemplar de O Nascimento da Tragédia, oferecido pelo autor. Há muito para ver e, no piso superior, profundamente alterado e ocupado por uma exposição temporária, tento adivinhar onde seria o quarto de Nietzsche, que ali foi regularmente durante três anos. Pajak escreve que ele «viveu ali os anos mais felizes da sua vida» e é fácil sentirmos essa energia. A amizade e paixão por Cosima, o respeito e admiração por Wagner, a alegria e o encanto daquele lar, mas também a música, naturalmente omnipresente, marcaram para sempre o filósofo. 

A seguir, viria o corte e, por regra, apontam-se as críticas de Nietzsche ao cristianismo, à conversão do casal Wagner ao protestantismo, ou o germanismo da sua música e Bayreuth, que consumou definitivamente o rompimento. Mas Pajak salienta no seu ensaio um motivo interessante, o choque entre dois compositores. 

Depois do nascimento do filho, Wagner ofereceu no ano seguinte o Idílio de Siegfried, uma das suas mais belas obras, como presente de aniversário à mulher. Foi tocado pela primeira vez no dia 25 de Dezembro de 1870, em Tribschen, quando Cosima celebrou 33 anos, o que a deixou em lágrimas. Nietzsche estava presente e ofereceu-lhe a partitura de uma composição sua para piano a quatro mãos. Seria, como diz Pajak, para desafiar Wagner? 

A verdade é que Nietzsche, certamente temendo críticas, regressou a Basileia evitando a festa. Curiosa, Cosima sentou-se ao piano para tocar a peça. No entanto, apesar da grande amizade com Nietzsche, riu-se de tal forma que não conseguiu terminá-la e o seu marido juntou-se nesta chacota... 

Em 1872, os Wagner deixam Tribschen, mas Nietzsche continua a compor. Enfrenta as duras críticas de Hans von Bülow e o elogio amistoso de Olga Herzen, não desistindo. Escreve o Hino à Amizade, que o deixa muito satisfeito, mas os seus distantes amigos Richard e Cosima, mais uma vez, não o recebem bem. Anos depois, Cosima escreverá: «Foi um tal Hino à Amizade que iniciou verdadeiramente a ruptura.» 

É curioso que quando Wagner morreu, em Veneza, em 1883, Nietzsche estivesse também no Norte de Itália, em Génova. Ao saber da notícia pelo jornal, o choque traz-lhe as lágrimas e fica doente por uns dias. Recuperado, decide ir a Tribschen com a sua amiga Lou Andreas-Salomé, numa peregrinação ao local onde foi feliz junto àquele a quem chamou o «velho feiticeiro». A recordação dela desse momento é tocante: «Durante muito, muito tempo, ele ficou sentado em silêncio à beira do lago, imerso em recordações pesadas; depois, desenhando na areia húmida com a ponta da bengala, falou-me, com uma voz abafada, daqueles tempos passados. E quando ergueu os olhos, vi que chorava.» 

Pajak afirma que, para Nietzsche, a música constitui «algo de vital, nada menos do que a arte suprema». De facto, foi a música que o acompanhou toda a vida. Antes do colapso mental, para pesadelo do seu senhorio em Turim, tocava piano no apartamento fosse a que horas fosse. Depois, quando já se encontrava num estado catatónico e aos cuidados da mãe, continuava a sentar-se ao piano para tocar. Um dia, ao ouvi-lo interpretar Beethoven, a mãe de Nietzsche afirmou: «A sua forma de tocar piano é tão cheia de sentimento que percebemos que ele pensa enquanto toca.»