terça-feira, 10 fev. 2026

Para o PSD chegou a hora da verdade

Para as centenas de milhar de eleitores de direita que ainda seguiam o canto de sereia do‘voto útil contra o socialismo’ também chegou a sua hora da verdade.

Há dias o secretário-geral do PSD, Hugo Soares, veio alertar o mundo: «Cada voto em Cotrim corresponde à eleição de Seguro como Presidente da República». Podemos agora alertar Hugo Soares para que cada voto que não vá para André Ventura (AV) nesta segunda volta é abrir a Seguro as portas de Belém. 

Para o PSD chegou a hora da verdade. Ao fim de anos sem fim a ganhar legislativas contando com o ‘voto útil’ da Direita ‘contra o socialismo’, o PSD não podia ter fugido a, em definitivo, declarar de que lado estaria nesta 2.ª volta das presidenciais em que de um lado está um candidato de Direita e, do outro, um candidato apoiado pelo PS. E não, Seguro o campeão da democracia contra o ‘fascismo’? Nem a dra. Ana Gomes acredita nisso.

Para o PSD chegou a hora da verdade. Ao fim de anos sem fim a semear miragens no caminho do eleitorado de direita, o PSD está encostado à parede: agora chegou o momento de os eleitores de direita que votaram ‘útil’ no PSD para ‘barrar o caminho à esquerda’ exigirem ao PSD a contrapartida de declarar o voto em AV para que seja barrado o caminho ao PS e a toda a esquerda unida atrás de Seguro.

Para o PSD chegou a hora da verdade. Porque na primeira volta ficou claro que o voto cativo social-democrata não passa de uns marginais 11%. Tudo o mais que tem tido é voto útil. Voto útil que tem diminuído, mas continuava relevante. Até domingo passado. Porque esse voto irá na segunda volta para AV. E nunca mais regressará ao PSD.

Para o PSD chegou a hora da verdade. Porque até estas presidenciais o PSD era, desde a sua fundação, dois partidos em um: o PPD, partido popular e conservador, de centro-direita e o PSD, um partido social-democrata de centro-esquerda. Uma permanente ambiguidade em que a cúpula social-democrata ia fragilizando, nos corredores, os primeiros-ministros saídos do PPD. Santana Lopes e Pedro Passos Coelho que o digam. Essa ambiguidade não vai sobreviver ao rescaldo destas presidenciais. Com essa ambiguidade o PPD atraía, involuntariamente, o voto útil da direita para depois o PSD, com esse voto, governar à esquerda. A rutura vai ser inevitável: subsistirá um, ou o outro. Essa rutura começou com a oposição de Montenegro e do seu núcleo duro a uma coligação com o Chega nas penúltimas legislativas. O PPD, essencialmente reformista, sabe bem que só são possíveis reformas de fundo numa forte coligação com o Chega. Montenegro insistiu. Está a pagar o preço. Porque PSD e PPD não voltarão a caber os dois na S. Caetano. Não custa adivinhar quem vai ter de sair, malas aviadas, pela porta das traseiras. Ao Chega, pouco importa quem fique ou quem saia. Ao Chega importa, isso sim, é que a ambiguidade termine e que possa ter ali ou um claro adversário, ou um aliado de confiança para meter ombros à tarefa de mudar o país. 

Mas, para as centenas de milhar de eleitores de direita que ainda seguiam o canto de sereia do ‘voto útil contra o socialismo’ também chegou a sua hora da verdade. A hora de perceber que o seu ‘voto útil’ foi inútil. Foram enganados: agora que temos, frente a frente, um homem de direita a enfrentar um socialista, o líder do PSD finge assobiar para o lado enquanto, tudo o indica, manda os seus homens de segunda linha apoiar a candidatura de Seguro. Espero, vivamente, que esses tantos votos que foram úteis apenas ao PSD passem, a partir de agora, a ser úteis a Portugal. Que bem deles precisa.

Vice-presidente da Assembleia da República