segunda-feira, 16 fev. 2026

Os portugueses e o espetáculo do bando que ataca o homem só

A simples passagem de Ventura à 2.ª volta entregou-lhe a liderança da direita. Qualquer resultado nesta 2.ª volta acima dos 32,8% a reforçará

António José Seguro pode começar a preocupar-se. Na noite da primeira volta podia dar por garantida a sua vitória sobre André Ventura com boa margem. A ainda larga taxa de rejeição de AV trabalharia por AJS. Mas tal era não contar com o imprevisto, esse inevitável parceiro de qualquer político.

E o imprevisto surgiu. Sob a forma do mais hilariante espetáculo que imaginar se possa, uma procissão de micro, pequenos e médios notáveis a declararem, em afinado coro, o seu acrisolado amor ao Dr. Seguro; o quanto respeitavam a moderação do Dr. Seguro; o quanto estavam dispostos a lutar para poderem ver, em breve, entronizado em Belém, o dialogante dr. Seguro. Porque, dizem e repetem, isto é uma luta escatológica entre o Bem (o Dr. Seguro) e o Mal (o Dr. André Ventura). Esse Mal absoluto encarnado pelo nipo-nazi-salazar-fascista André Claro do Amaral Ventura. Em reluzentes packs de 100, 250 ou 500 unidades, médicos, políticos, gentes da ‘cultura’, católicos, bucólicos e acólitos vão-nos sendo apresentados pelos legacy media indígenas várias vezes por hora inúmeras vezes ao dia. Todos marchando atrás do Dr. Seguro contra o fascismo; ou o radicalismo; ou qualquer outro ismo. Sim, hilariante.

Hilariante para todos excepto para António José Seguro. Pessoa estimável, mas que corre o risco de perder a corrida a Belém afundado pelo peso destes apoios. E isso por três razões simples que têm a ver com três características muito próprias do povo português.

1. O português tem um profundo sentido do ridículo. E esta pressa de gente que a si própria se assume como ‘notável’, muitos saindo dos túmulos políticos onde jaziam há anos, atropelando-se com especialistas em acumular 40 conselhos de administração e presidências de AGs, todos ansiosos por sinalizar a sua imensa virtude, é de um notório ridículo. Muitos votos fugirão ao dr. Seguro para AV ou para a abstenção (o que resultará no mesmo).

2. O português odeia ver o espetáculo do bando que ataca o homem só, principalmente quando esse homem só o enfrenta sem medo. Até pode não gostar do homem. Mas tomará o seu partido. Neste caso silenciosamente, indo votar nele no dia do ajuste de contas.

3. O português é arguto. Com este ‘todos contra um’ o sistema ofereceu-se, a si próprio e numa bandeja, a André Ventura, assim provando a todos e a cada um que existia como tal. Que não era uma mera efabulação do líder do Chega por aquele inventada para colher votos. E o português percebeu na hora. A paisagem política portuguesa ficou clarificada: para um lado a direita da esquerda, a que se reduz aos seus muitos e variados pequenos e grandes interesses. Para o outro lado, a Direita. Só a direita. Que é e sempre foi conservadora, nacional e popular.

Fala-se e é óbvio que será o grande mote no pós-8 de fevereiro, a questão de sobre quem lidera essa direita. A direita da esquerda, encabeçada por Luís Montenegro, tentará chamar a si essa liderança. Contudo esta aliança objectiva com o PS feriu-a de morte.

A simples passagem de AV à 2.ª volta entregou-lhe a liderança da direita. Qualquer resultado nesta 2.ª volta acima dos 32,8% a reforçará. Desde logo, porque aquele valor foi o conseguido pelo PSD nas últimas legislativas. Depois porque, a partir desse valor, o campo da direita da esquerda entrará em convulsão e a muito curto prazo. A direita da esquerda avaliou mal AV. Irá pagar caro esse erro.