Na semana passada, Mário Amorim Lopes contesta posições minhas na crónica O centro-direita, o centro e o centro-esquerda. Respondo a Amorim Lopes, partindo da principal falha que me é apontada a de «Pacheco de Amorim se esquece de fazer – essencial para o exercício que se propõe – é o que significa ser de direita».
Ora bem, aquela minha crónica estava longe de qualquer pretensão teorizadora, limitando-se a enunciar factos. Desde logo porque os 3.330 carateres disponíveis não dão margem a grandes voos teóricos. O essencial dessa crónica tinha a ver com uma questão muito prática: a do porquê da localização no espetro político, atribuída por jornalistas e comentadores a certos partidos, estar em dissonância com a que os dirigentes desses partidos aos próprios partidos atribuem. E apresentei dois exemplos: o do PSD, o qual ainda há dias o seu presidente definiu como sendo do centro (e que muitos outros seus dirigentes classificam no centro-esquerda) e a IL. Quando João Cotrim de Figueiredo (JCF) se quis sentar, na sala das sessões, entre PSD e PS, seguramente que não queria, com esse gesto simbólico, afirmar-se politicamente na direita. O mesmo JCF que disse, repetidamente, não ser de direita. Não conheço nenhum deputado ou dirigente da IL que se tenha afirmado de direita. Mas se, entretanto, se deu uma alteração nessa posição, era bom que fosse afirmada.
Todos sabemos onde começou essa partição, inicialmente ‘topológica’, entre esquerda e direita. Só que poucos refletem sobre a razão para que esses dois termos, inicialmente tão localizados num espaço e num tempo específicos, se tenham perenizado qualquer que fosse o espaço ou o tempo. Perenizaram-se, creio, porque correspondem a dois modos básicos que tem o Homem de encarar o mundo e a vida: de um lado, otimistas antropológicos para quem as teorias precedem os factos e o progresso é uma linha reta entre um ontem sombrio e amanhãs que cantam; do outro, pessimistas (e também realistas) antropológicos para quem os factos precedem as teorias e estando o progresso longe de ser um percurso linear, mas com avanços e recuos em direção a amanhãs que podem ou não cantar. Sim, há várias direitas, como há várias esquerdas. Dentro de cada perfil existem gradações. Mas todas as esquerdas se filiam no primeiro perfil e todas as direitas no segundo. Exceção para o liberalismo clássico, oscilando entre as duas. Daí o facto dos termos esquerda e direita terem perdurado muito para além da Assembleia onde tiveram início e de se irem adaptando a várias circunstâncias históricas: perduraram porque correspondem a duas estruturas de personalidade distintas determinando duas mundividência inconciliáveis. Muitos tentam fugir a essa, alegam, falsa antinomia. Mas ela corresponde de tal forma à realidade política profunda que regressa sempre. Isto é o essencial e que responde a outros passos da crónica de Amorim Lopes.
Voltando à questão prática e uma vez que os termos direita e esquerda continuam a existir: de todos os partidos com assento parlamentar, o único que a si próprio se localiza na direita é o Chega. É um facto e é sobre factos que eu discorria nessa crónica. Claro que tenho uma ideia sobre o que, para além daquele perfil de base que atrás defini, significa, em termos mais específicos, ser de direita. Tentarei deixá-la aqui, dentro dos tais 3.330 carateres, em futura crónica.
Vice-presidente da Assembleia da República