Uma expressão de mau gosto pretende que ‘o Natal é quando uma pessoa quiser’. Em Portugal, isto tem uma versão política: ‘A Direita é aquilo que cada um quiser’. Direita é, hoje, um conceito fluido e meramente operacional, a ser usado conforme os momentos políticos e os interesses circunstanciais da bolha político-mediática. Passei cinco anos num curso de filosofia onde os professores, todos eles, se dedicaram, persistentemente, a imbuir-nos do respeito pelo rigor dos conceitos, pelo rigor da linguagem e pelo rigor da relação entre uns e outra. Para eles, o Natal não era quando cada um queria, mas no dia 25 de dezembro. Ponto.
Assim sendo, vamos a alguns traços que desenham o perfil desta confusão: A IL, pela voz de Cotrim de Figueiredo afirmou não ser um partido de direita. Quando o próprio foi eleito deputado único quis sentar-se entre a bancada do PSD e do PS, ou seja, no centro-esquerda. E, de facto, se o programa económico da IL se situa à direita, nas questões de sociedade pouco se distingue do BE. Contudo, a bolha mediática insiste em colocá-los no centro-direita. Quanto à atual Direção do PSD, pela própria voz do seu líder coloca-se ao centro. As figuras de referência de Luís Montenegro dentro do partido são Cavaco, Ferreira Leite, Leonor Beleza e outros que se situam no centro-esquerda. Mas jornalistas e comentadores insistem em também colocar o atual PSD no centro-direita. Quem tem razão: os jornalistas ou os próprios partidos? Era bom que chegassem a uma conclusão para que os eleitores do centro-direita não fossem votar ao engano. Passando agora pelas várias ‘personalidades’ ditas representantes do centro-direita que apelaram ao voto em Seguro. Quase todos eles se poderão situar no centro-esquerda, caso de António Capucho ou de Leonor Beleza (e a lista seria interminável para um espaço aqui tão reduzido). Mas jornalistas e comentadores (aqui por razões óbvias) insistiram em colocá-los no centro-direita, quando não mesmo na direita. Mas os próprios PSD, IL e personagens avulso de ambos os partidos facilitam a confusão quando tal lhes é útil. Acresce um mistério: entre o centro-direita e a ‘extrema-direita’ temos um vazio sideral. Em termos de opinião publicada, claro, porque na realidade aí é que se encontra o Chega.
Fala-se de uma maioria de direita em Portugal saída das últimas eleições. Haverá, de facto, uma maioria de direita e de centro-direita só que, dos partidos que supostamente a representariam, apenas o Chega representa os eleitores de direita dessa maioria. A parte de centro-direita acabou por votar em partidos de centro ou de centro-esquerda que, de facto, a não representam. Apenas estarão representados quando o PSD voltar a ser e se isso vier a acontecer, um partido de centro-direita. Deles, 300.00, contra ventos e marés, já perceberam. Os outros lá chegarão.
Aos jornalistas cabe-lhes ser rigorosos e não classificar como de direita ou de centro-direita partidos cujos líderes se dizem como de centro ou de centro-esquerda. Fazê-lo é desinformação. Como é desinformação colocar um partido de direita conservadora, caso do Chega, como de extrema-direita. E aos dirigentes desses partidos cabe não pescarem em águas turvas eleitorais com iscos de direita espetados em anzóis de esquerda, deixando que os seus partidos passem por aquilo que não são. Os eleitores enganados agradecem. E o país também.
Vice-presidente da Assembleia da República