sexta-feira, 07 ago. 2026

Montenegro pesca robalos à esquerda e salmonetes à direita

Um verdadeiro projeto político implica, hoje e aqui, reformas profundas. Reformas profundas nas funções sociais do Estado mas, sobretudo, nas suas funções soberanas, estas cruciais.

Luís Montenegro (LM), quando se encontrou primeiro-ministro, sonhou poder percorrer a legislatura num iate de 70 metros, em simpático vai-vem de quatro anos entre o Mónaco e Saint-Tropez, dolentemente bordejando Cap-Ferrat, Cannes e Saint Maxime. Ideia central? Ir pescando ora robalos à Esquerda ora salmonetes à Direita e tudo o resto seria champanhe, vodka, caviar e, vá lá, num cúmplice mas sempre longínquo aceno à populaça, uma sólida presença na bola do mundial.

A realidade? Uma traineira à deriva pelo estreito canal que serpenteia entre os penhascos do Chega e os baixios do PS. Com o fim da viagem sempre à vista para o minuto seguinte.

Abandonando as metáforas quando, desde o início, LMdeclarou que iria governar apoiando-se ora no Chega ora no PS, estava a confessar não ter um projeto político mas sim um projeto de sobrevivência política, coisa respeitável, sem dúvida, mas provavelmente longe daquilo que esperava uma boa parte do seu partido e a grande parte dos seus eleitores.

Um verdadeiro projeto político implica hoje e aqui, reformas profundas. Reformas profundas nas funções sociais do Estado mas, sobretudo, nas suas funções soberanas, estas cruciais.

Reformas que não podem ser feitas de modo avulso e ocasional, ao sabor do momento, como foi o caso da tão discutida reforma laboral. No estado a que o país chegou não basta ora uma semi-reforma aqui, ora uma semi-reforma acoli, ora outra quase-reforma acolá. As profundas reformas a fazer terão de ser desenhadas de forma global, todas concatenadas entre si e levadas a efeito de forma integrada. No fundo, reconstruir tudo de raiz.

Tal, como é evidente, jamais poderia ser feito ora pescando à direita, ora esgaravatando à esquerda.

Mas havia alternativa possível? Havia. Retomando a metáfora náutica, tinha sido simples: LM teria de partir de uma visão arrojada, transformar essa visão num projeto bem construído com um destino distante mas claro e alcançável, embarcar e fazer-se ao mar alto. Precisava de um parceiro? Precisava, a maioria absoluta estava longe. Tinha dois por onde escolher, o Chega e o PS. Com o PS jamais conseguiria fazer qualquer reforma, por mínima que fosse como para todos resultará bem claro. Foi o PS o grande arquiteto deste sistema e, como seu principal beneficiário, sente-se obviamente confortável com ele e, sendo assim, porque razão haveria de o querer alterar?

Restava o Chega. Que desde o princípio declarou que estaria disposto a uma coligação desde que esta se destinasse a um trabalho de fundo, de reformas estruturais integradas desenhadas para uma legislatura com uma segunda fase, se possível, ao longo de uma segunda legislatura. Luís Montenegro não o quis. Com isso ganhou o Chega, mas perdeu o país. Ganhou com o Chega porque qualquer coligação com o PSD iria travar o seu crescimento, senão mesmo levá-lo a perder uma fração do seu eleitorado. Com as linhas vermelhas, quem neste momento está a perder eleitorado é o PSD. E quem está a perder tempo e futuro é o país. Ah! E a reforma laboral, estarão neste momento a perguntar-se os leitores? A reforma laboral é para ser feita, mas integrada em muitas outras reformas sem as quais essa reforma laboral iria ter demasiados custos e traria muitos poucos benefícios quer para as empresas quer para os seus trabalhadores. As coisas ou se fazem à séria ou não se fazem.

Para mais do mesmo, este PSD e este PS chegam perfeitamente. Até que os eleitores lhes virem definitivamente as costas.

Vice-presidente da Assembleia da República