Dois vencedores

Ventura não averbou uma «colossal derrota» nas presidenciais, pois que estas foram uma ‘matrioska’ eleitoral, duas eleições em que uma ocultava a outra no seu interior: Seguro corria para Belém. Ventura, para mais uma etapa em direção a S. Bento.

Rui Calafate, na passada semana, previa na sua crónica aqui vizinha que estas eleições presidenciais teriam dois vencedores, AV e AJS. E assim foi. Cito outros dois observadores atentos que, tal como Rui Calafate, são reconhecidos pela sua imparcialidade: Pedro Gomes Sanches e António Barreto. Escreveu o primeiro no Facebook:  2019 – Legislativas (Chega) 1,29%; 2021 – Presidenciais (André Ventura) 11,90%; 2022 – Legislativas (Chega) 7,18%; 2024 – Legislativas (Chega) 18,07%; 2025 – Legislativas (Chega); 22,76; 2026 – Presidenciais 1.ª volta (André Ventura) 23,52%; 2026 – Presidenciais 2.ª volta (André Ventura) 33,18%. E acrescenta: «Quem acha que André Ventura perdeu ou é louco ou é cego. Há uma terceira hipótese: ser louco e cego. A direita em Portugal faz lembrar aquela célebre frase de Shakespeare: Tis the times’ plague, when madmen lead the blind. E nós sabemos o que aconteceu ao Rei Lear, não sabemos, Montenegro?». Fim de citação. E agora António Barreto: «Formidável a campanha de André Ventura, cuja alta voltagem era difícil manter. Disfarçou uma colossal derrota presidencial com uma vitória política. Na direita e no parlamento, a iniciativa é sua. Os outros vão limitar-se a reagir». E, mais à frente: «A debilidade do PSD, a vulnerabilidade da AD, a tibieza de Luis Montenegro e a hipocrisia do Governo vão abrir uma das mais formidáveis crises da direita portuguesa. Com Ventura na loja de louça, não haverá sossego». Aqui apenas corrigiria um ponto de A. Barreto, pois que Ventura não averbou uma «colossal derrota» nas presidenciais, pois que estas foram uma ‘matrioska’ eleitoral, duas eleições em que uma ocultava a outra no seu interior: Seguro corria para Belém. Ventura, para mais uma etapa em direção a S. Bento. E o quadro acima de Gomes Sanches deixa bem claro o quão profícua foi esta etapa para o líder do Chega. 

E Montenegro? Gomes Sanches interpela-o com uma referência a King Lear e ao episódio da fala de Gloucester, onde Shakespeare retoma uma ideia que atravessa toda a sua obra: a de que a cegueira precede a queda e de que a lucidez chega tarde demais. Eu evoco-lhe Macbeth, aquele que jamais seria vencido enquanto o grande bosque de Birnam não avançasse contra ele «até à alta colina de Dunsinane». Jornalistas, círculo de fiéis, comentadores avulso de todos conhecidos, os gastos profetas deste novo mundo convenceram-no de que isso nunca aconteceria. ‘Quem pode obrigar uma floresta a mover-se?’. Se Montenegro deixasse, por um momento, subindo até às ameias, a sua corte nos salões de Dunsinane, veria que o bosque de Birnam, galgada a colina, atravessava já as portas das muralhas abandonadas pela soldadesca sentada na sala da guarda, a ouvir os inúmeros comentadores dos vários canais a assegurarem que o bosque de Birnam jamais subiria Dunsinane e que, aliás, o bosque não passava de uma solitária árvore daninha. Nota zero. Sempre. Em tudo. Todos. E os 250 ‘notáveis’. E os 500-qualquer-coisa. Em coro. O coro de uma fantasmática Orquestra Sinfónica da União Nacional nas ondas de um ressuscitado Rádio Clube Português.

Resultado: entre loucos que conduzem cegos e florestas que trepam colinas, se está (metaforicamente) a redesenhar a história da direita em Portugal. A essa questão, sobre quem a entre nós a lidera, de que direita falamos, onde essa direita se oculta ou se revela, será dedicada a próxima crónica.

Leia sem distrações! Navegue sem anúncios em todos os sites do Universo IOL e receba benefícios exclusivos!
TORNE-SE PREMIUM