O filme Citizen Vigilante (2026), realizado por Uwe Boll e protagonizado por Armie Hammer, é um thriller de ação centrado no tema da justiça pelas próprias mãos.
Em síntese:
Sanders, um antigo militar americano que vive na Croácia e herdou um império imobiliário, perde completamente a confiança no sistema judicial ao assistir à impunidade de criminosos responsáveis por homicídios, violações e outros crimes violentos. Verificando que o Estado se mostra incapaz de proteger, ou não quer proteger os cidadãos, decide agir por conta própria. Inicia, então, uma campanha sistemática para localizar e eliminar criminosos responsáveis por atos particularmente graves. À medida que grava e divulga as suas ações nas redes sociais, transforma-se num fenómeno mediático: para muitos cidadãos é um herói que faz aquilo que o Estado devia, mas não consegue ou não quer fazer; para a polícia, é um homicida que deve ser detido. O conflito intensifica-se quando Sanders passa a enfrentar não apenas criminosos, mas também as forças policiais e elementos do sistema judicial, que considera cúmplices da degradação da ordem pública.
E eis-nos de regresso à crónica da semana passada sobre o contrato social e a parte do Estado nesse contrato. Este filme é um alerta para o que poderá vir a acontecer caso o Estado não cumpra a sua parte. Todos nós sabemos que, em todo o Ocidente, os vários Estados estão a falhar, de forma dramática, neste seu dever. A isso dedicaremos uma próxima crónica.
Muito interessante e sintomático foi o que se seguiu: Quase seguramente por decisão do Governo alemão, a entidade alemã de autorregulação cinematográfica, a FSK, recusou atribuir uma classificação etária ao filme. Sem essa classificação, o filme ficaria praticamente excluído do circuito comercial normal o que, para todos os efeitos práticos, equivaleria a uma proibição de facto. O realizador, Uwe Boll, qualificou a decisão como censura incompatível com a liberdade de expressão e anunciou uma ação judicial contra a FSK. O que aconteceu depois foi o total oposto do que as autoridades pretendiam: Com o seu visceral horror à censura Elon Musk, de acordo com o produtor, disponibilizou gratuitamente o filme, durante cerca de 48 horas, no X. Essa divulgação deu ao filme uma projeção internacional muito superior à que, provavelmente, teria obtido por via de uma estreia convencional. Nos dias seguintes 1) o filme terá acumulado cerca de 40 milhões de visualizações no X 2) ganhou enorme atenção mediática internacional 3) acabou por assegurar distribuição muito mais ampla fora da Alemanha do que o inicialmente previsto. Finalmente, a FSK - ou seja, o Estado alemão fez marcha atrás e classificou o filme, o que permitiu a sua normal exibição na Alemanha. Moral da história? Tem várias facetas, a moral desta história exemplar.
Desde logo, um alerta: os cidadãos estão fartos de Estados que os asfixiam com impostos não lhes garantindo, sequer, o serviço básico representado por uma justiça pronta, cega e eficaz e uma segurança radical das suas pessoas e bens.
Depois, a censura: Bruxelas pode inventar o DSA, o EDS, o AI Act e todas as formas mais ou menos encapotadas de limitar a liberdade de expressão. Elas apenas reforçarão o instinto de liberdade que sempre foi e será, a mola da civilização ocidental.
Finalmente, uma constatação: matar o mensageiro que nos traz más notícias já não funcionava na Antiguidade. Agora, menos ainda: por cada mensageiro morto, surgem milhares no momento seguinte, as plataformas digitais tratam disso. Este Citizien Vigilante é um alerta e foi produzido e realizado para ser um alerta e não, como foi alegado, um incentivo. Está bem visível o que resultou da tentativa de sufocar esse alerta: a sua desmesurada amplificação. Que sirva de dupla lição: a necessidade de corrigir o que tem de ser corrigido e a inocuidade, nos tempos que correm e por muito sofisticados que sejam, dos processos de censura. Ainda é tempo de evitar, com essenciais reformas de fundo das instituições que estruturam as democracias liberais, que o poder caia na rua e a justiça passe a ser feita pelas próprias mãos. Duvido que os partidos tradicionais sejam capazes dessas reformas: fazendo parte do problema, não poderão fazer parte da solução. Mas o futuro o dirá.
Vice-presidente da Assembleia da República