terça-feira, 18 ago. 2026

Caso Luís Neves: um western político à portuguesa

A sobrevivência política de Luís Neves à sua conferência de imprensa é a prova que faltava. Entre a espada e a parede, Montenegro escolheu a parede.

Um ministro da Administração interna quando numa entrevista diz que tem um tanque e no dia seguinte é confrontado com as imagens de uma piscina, numa democracia normal ou se demitiria de imediato, ou de imediato seria demitido pelo primeiro-ministro. Porque todos sabemos e ele melhor do que ninguém, que a piscina não foi baptizada de «tanque» por louvável modéstia mas porque essa piscina não poderia lá estar. E que, caso pudesse, agravaria o IMI a pagar por aquele monte dos vendavais políticos. Mas a coisa passou, como passaram muitas outras que se seguiram, cada vez mais incómodas e cada vez mais graves. Não vale a pena enumerá-las, o país a todas conhece de cor. No princípio de tudo, com a inconsciência de quem desconhece o mundo onde acabava de entrar, Luís Neves (LN) deu três entrevistas de rajada na mesma noite. A coisa correu mal, muito mal. O MAI entrou nos estúdios com água pela cintura, saiu de lá com água pela barba. A partir daí, após cada novo caso e a cada nova rajada de perguntas que cada novo caso trazia, o Dr. Luís Neves dizia que era dono do seu tempo e que chegado o momento ele a tudo responderia. Três longas semanas, à espera do tempo do Dr. Luís Neves. Esse tempo chegou. Foi coisa solene. E inútil. Tudo o que era irrelevante foi apresentado. Nada do que era importante ficou respondido. E novas coisas surgiram.

Ficam até agora, deste folhetim, vários reparos, sendo este o primeiro: quem acerta os ponteiros do tempo político num governo, o ‘dono do relógio’ é, tem de ser sempre, o primeiro-ministro e não qualquer ministro. Quem é suposto estar na cabine e conduzir é, neste caso, Luís Montenegro (LM), Neves segue – ou deveria seguir – no atrelado, ou na galera, como todos, nestes dias, aprendemos a soletrar. E isto é tanto mais estranho quanto LM bem sabe o que todos os portugueses julgam saber sobre as razões pelas quais Luís Neves parece ser intocável, faça ele o que faça e diga ele o que disser. Este comportamento de Montenegro é atípico, como atípico é virem dois ministros defender LN enquanto os outros se calaram. E o silêncio dos que se calaram foi tão mortal para Neves como as palavras dos dois que falaram. Atípico, ainda, o tácito apoio do PS apimentado com uma ou outra crítica sempre benévola e algo sorridente. Como atípica é a posição – ou a falta dela – do Presidente da República no que toca ao seu dever primeiro que é o de zelar pelo regular funcionamento das instituições. Mas, mais do que tudo, o que impressiona vivamente neste quadro aquático e pantanosa é o imenso silêncio que o domina e lhe faz de remate e de pano de fundo. Lembra-me o pesado silêncio de algumas cidades do Far West dos western spaghetti da minha adolescência, o silêncio pesado do medo de gente que se movia cozida com as paredes porque o poder sobre as suas vidas lhes fugira das mãos e fora parar a mãos alheias. Como fugira das mãos do juiz acobardado e do xerife vendido.

Mas neste western político à portuguesa há quem rompa a cortina do medo. Este jornal, que reuniu uma equipa de jornalistas de investigação e cortou a direito. André Ventura e o Chega – timidamente seguidos dias depois pela IL – únicos partidos que fizeram frente. Finalmente, a de algumas vozes do regime que, lúcida e corajosamente, caracterizam este caso – e bem – como evidente prova da agonia do regime. Um fim de regime que André Ventura e o Chega haviam diagnosticado há oito anos – lembram-se da IV República? – mas que, então, toda a gente se recusava a ver. Aqui está ele, o fim do regime. A sobrevivência política de Luís Neves à sua conferência de imprensa é a prova que faltava. Entre a espada e a parede, Montenegro escolheu a parede. Vai liquidar o Governo e remeter o PSD para a estatura de um partido médio. O PS seguirá o mesmo caminho. E isso representará a transfiguração do regime.

Vice-presidente da Assembleia da República