segunda-feira, 18 mai. 2026

Budapeste, Teerão, Paris, Berlim, Londres e Lisboa

Que Pacheco Pereira o tenha feito naquele debate da CNN como último recurso para atingir André Ventura, só o posso lamentar profundamente. Por ele, não por mim.

Budapeste. Viktor Orbán perdeu com a dignidade de um Senhor. Os erros que cometeu – e foram vários – não apagam a coragem com que sempre viveu e governou. Essa coragem com que enfrentou, nos tempos negros da Hungria, os tanques do ocupante soviético, foi a mesma com que desde há dezasseis anos combatia, sem tréguas, a lenta mas persistente invasão do império tecno-burocrático de Bruxelas que tudo corrói. Assumiu posições difíceis para proteger o seu povo. O preço foi alto e a fatura chegou no domingo passado. Diretamente de Bruxelas. Pagou sem pestanejar. E ainda deu os parabéns ao cobrador contratado pela Senhora von der Leyen, essa coveira de uma Europa que já foi.

Teerão. «No plano material, o Irão está em perda: sem liderança, sem marinha, sem força aérea; com os programas balístico e nuclear comprometidos e os seus proxies neutralizados. O regime, mais enfraquecido do que nunca, perdeu capacidade de projeção e de resistência, atributos essenciais do poder. Nos seus próprios céus, forças americanas e israelitas operam e circulam, desde o início da operação, sem qualquer impedimento. No terreno dos factos, a derrota iraniana é clara e clamorosa. E, no entanto, essa derrota é apresentada, por muitos (no Ocidente, mais do que na região), como uma vitória. Para sustentar tal inversão, é necessária uma forma muito particular de dissonância cognitiva, alicerçada numa tripla obsessão, cumulativa: anti-Trump, de natureza emocional; anti-americana, de índole ideológica; e anti-ocidental, de caráter civilizacional». Uma síntese brilhante do Tiago Moreira de Sá, um dos nossos mais reputados especialistas em Política Externa. E acrescenta: «É no plano mediático que essas três obsessões convergem, encontrando expressão numa figura emblemática do nosso tempo: o comentador ocidental que, numa fusão quase caricatural entre Ali o Cómico e o Gajo de Alfama, converte o seu ressentimento e ignorância num exercício quotidiano de catarse». Está tudo dito.

Paris, Berlim, Londres. A queimar querosene às toneladas pago pelos contribuintes, Macron, Merz e Starmer, última camada das muitas dos coveiros da velha Europa, passam os dias enfiados nos jatos dos respetivos governos a passear a sua faustosa inutilidade daqui para ali e de ali para acolá, tentando imiscuir-se num palco onde só os grandes contam. Expulsos uma vez e outra pelos porteiros, não desistem. Nunca desistem. Compreende-se. Nos seus países, por eles arruinados, não podem sair à rua sem serem insultados.

Lisboa. Estúdios da CNN. Debate André Ventura/Pacheco Pereira. Fez-me pena, muita pena, ver um homem que pensa bem e que escreve melhor, perdido no mato cerrado e claustrofóbico das suas muitas certezas. E lamentei mais ainda quando, já há muito perdido o chão, usa o meu nome para um derradeiro e desesperado ataque a André Ventura. PP tem o suficiente conhecimento daquele período em debate para saber quão injusta era a acusação. Que um militante de base do BE ou um qualquer anónimo alarve escreva, nas redes ou em caixas de comentários uma coisa dessas, só dá para encolher os ombros. Que Pacheco Pereira o tenha feito naquele debate da CNN como último recurso para atingir AV, só o posso lamentar profundamente. Por ele, não por mim.

Um percurso pelo mundo dos últimos quatro dias. Um percurso que nos deixa um amargo na boca porque nos passa os sinais – inequívocos – de uma civilização que, docemente, apodrece no seu sudário de algas.

 

Vice-presidente da Assembleia da República