Assumindo uma nova realidade geopolítica marcada por competição entre potências, regressão da globalização, economia subordinada à política, primado do conceito da política externa como a prossecução dos interesses permanentes das nações, securitização das fronteiras e erosão do multilateralismo normativo, o critério de escolha do PR, aquele que simboliza a soberania da nação e é dela o garante último muda radicalmente. Já não se trata de eleger um bordador de consensos, mas de alguém capaz de afirmar interesses permanentes. Nesse quadro, importa clarificar três pontos essenciais.
1. O Presidente deixa de ser ‘árbitro’ para ser um ‘polo’. Num mundo pós-ordem internacional liberal, os Estados deixam de funcionar como gestores de regras estatuídas em plataformas multilaterais burocráticas não eleitas e passam a atuar como atores estratégicos em ambiente hostil. Mesmo em sistemas semipresidenciais como o português, o Chefe de Estado ganha relevância como símbolo de soberania política, não apenas constitucional; voz clara em matérias civilizacionais (fronteiras, identidade, segurança, hierarquia de valores); fator de pressão interna sobre governos excessivamente dependentes de constrangimentos externos. Neste contexto, um perfil “agregador” não é virtude, mas fragilidade. A coesão já não nasce do consenso, mas da delimitação clara de um dentro e de um fora
2. André Ventura ajusta-se melhor a um mundo de conflito político aberto. De facto, aceitando este novo enquadramento, André Ventura é o único candidato que entendeu que o velho mundo nascido da queda do muro de Berlim morreu. Não por detalhe programático, mas por estrutura mental e política. De facto, AV opera numa lógica de amigo/inimigo que voltou a ser central nos sistemas políticos; assume frontalmente a erosão do globalismo e a concomitante centralidade do Estado-nação; recusa o léxico tecnocrático e jurídico que perdeu eficácia num mundo que passou a olhar de frente a realidade e entende a política como confronto de legitimidades, não como gestão neutra de falsos consensos.
Num mundo em que a diplomacia é cada vez mais transacional, a economia cada vez mais armada e a política cada vez mais centrada nas nações, Ventura não sofre de anacronismo conceptual – ao contrário de candidatos moldados para uma ordem que já não existe
3. O risco, hoje, já não é a polarização; é a irrelevância. Num sistema estagnado, a polarização é disfuncional. Num sistema em radical transformação, a neutralidade é simplesmente irrelevante. O verdadeiro risco para Portugal, neste novo mundo, não é ‘excesso de conflito interno’, mas ausência de linguagem soberana; submissão automática a enquadramentos externos já falidos e elites políticas que continuam a agir como administradores de um edifício em ruínas.
Para os que vivem ainda num mundo que já morreu, Ventura não é o candidato mais seguro. Mas, na verdade, é ele seguramente o único adequado para a época histórica que se abre na nossa frente.
Concluindo: sendo verdade que a velha ordem internacional terminou, o multilateralismo normativo está condenado e a política voltou a ser um confronto entre projectos, então a. Os outros podem oferecer uma mítica estabilidade institucional; Ventura oferece adequação histórica. Períodos de rutura exigem personalidades fortes. As coisas são o que são.
Vice-presidente da Assembleia da República