segunda-feira, 09 fev. 2026

André Ventura é o único candidato que não fala uma língua morta

Ventura oferece adequação histórica. Períodos de ruptura exigem personalidades fortes.

Assumindo uma nova realidade geopolítica marcada por competição entre potências, regressão da globalização, economia subordinada à política, primado do conceito da política externa como a prossecução dos interesses permanentes das nações, securitização das fronteiras e erosão do multilateralismo normativo, o critério de escolha do PR, aquele que simboliza a soberania da nação e é dela o garante último muda radicalmente. Já não se trata de eleger um bordador de consensos, mas de alguém capaz de afirmar interesses permanentes. Nesse quadro, importa clarificar três pontos essenciais.

1. O Presidente deixa de ser ‘árbitro’ para ser um ‘polo’. Num mundo pós-ordem internacional liberal, os Estados deixam de funcionar como gestores de regras estatuídas em plataformas multilaterais burocráticas não eleitas e passam a atuar como atores estratégicos em ambiente hostil. Mesmo em sistemas semipresidenciais como o português, o Chefe de Estado ganha relevância como símbolo de soberania política, não apenas constitucional; voz clara em matérias civilizacionais (fronteiras, identidade, segurança, hierarquia de valores); fator de pressão interna sobre governos excessivamente dependentes de constrangimentos externos. Neste contexto, um perfil “agregador” não é virtude, mas fragilidade. A coesão já não nasce do consenso, mas da delimitação clara de um dentro e de um fora

2. André Ventura ajusta-se melhor a um mundo de conflito político aberto. De facto, aceitando este novo enquadramento, André Ventura é o único candidato que entendeu que o velho mundo nascido da queda do muro de Berlim morreu. Não por detalhe programático, mas por estrutura mental e política. De facto, AV opera numa lógica de amigo/inimigo que voltou a ser central nos sistemas políticos; assume frontalmente a erosão do globalismo e a concomitante centralidade do Estado-nação; recusa o léxico tecnocrático e jurídico que perdeu eficácia num mundo que passou a olhar de frente a realidade e entende a política como confronto de legitimidades, não como gestão neutra de falsos consensos.

Num mundo em que a diplomacia é cada vez mais transacional, a economia cada vez mais armada e a política cada vez mais centrada nas nações, Ventura não sofre de anacronismo conceptual – ao contrário de candidatos moldados para uma ordem que já não existe

3. O risco, hoje, já não é a polarização; é a irrelevância. Num sistema estagnado, a polarização é disfuncional. Num sistema em radical transformação, a neutralidade é simplesmente irrelevante. O verdadeiro risco para Portugal, neste novo mundo, não é ‘excesso de conflito interno’, mas ausência de linguagem soberana; submissão automática a enquadramentos externos já falidos e elites políticas que continuam a agir como administradores de um edifício em ruínas.

Para os que vivem ainda num mundo que já morreu, Ventura não é o candidato mais seguro. Mas, na verdade, é ele seguramente o único adequado para a época histórica que se abre na nossa frente.

Concluindo: sendo verdade que a velha ordem internacional terminou, o multilateralismo normativo está condenado e a política voltou a ser um confronto entre projectos, então a. Os outros podem oferecer uma mítica estabilidade institucional; Ventura oferece adequação histórica. Períodos de rutura exigem personalidades fortes. As coisas são o que são.

Vice-presidente da Assembleia da República