Na passada semana falámos em duas Europas que nada têm a ver uma com a outra: a Europa de Bruxelas estruturada em torno dos novos valores europeus e a Europa greco-romana e cristã que se desenvolveu em torno de um eixo de valores herdados da aretê grega, da virtus romana e da virtude cristã. Comecemos por este eixo de valores, a espinha dorsal daquela que é ainda, apesar de tudo, a mais brilhante civilização que o mundo conheceu.
O eixo central da escala de valores da Grécia antiga é a paideia, no sentido de educação integral do cidadão, com o objetivo de produzir um homem centrado na excelência guerreira, política, moral e intelectual; que procura a Beleza e a Verdade; capaz de autodomínio e de contenção; vivendo segundo os ditames da justiça, da razão e de uma perfeita harmonia entre nobreza moral, coragem, educação e dignidade. Ali, o homem realiza-se como cidadão. A vida política não é acessória, mas parte constitutiva da vida honrada como orientada para o bem comum. Daí a importância da assembleia, da lei, da retórica, da educação cívica. Em síntese, o ideal grego é o do homem harmonioso, racional, educado, contido, capaz de excelência pessoal e de participação na vida da cidade.
O eixo central da escala de valores da Roma antiga encontra-se na virtus e implica valores como a coragem, a firmeza, a energia moral e a capacidade de agir em circunstâncias difíceis; o dever para com os deuses, a família, os antepassados e a pátria; a gravitas no sentido de seriedade, dignidade, peso moral; a fides, no sentido de lealdade, respeito pela palavra dada, confiança. Ou ainda a perseverança e firmeza perante a adversidade.
Finalmente, o eixo moral e antropológico da virtude cristã encontra-se nas quatro virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Já existiam no mundo antigo, mas são reorientadas para um fim sobrenatural. A prudência é a reta razão aplicada à ação e que permite discernir o bem concreto a realizar em cada circunstância. Resume-se na frase ver corretamente, julgar corretamente e agir corretamente. A justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido: a Deus, ao próximo, à família, à comunidade política. No cristianismo, a justiça não fica reduzida à legalidade, pois que a lei injusta pode existir: a justiça verdadeira remete para uma ordem moral superior à vontade do legislador. A fortaleza é firmeza no bem perante o medo, a dor, a perseguição ou a morte. Finalmente, a temperança ordena os apetites, os prazeres e os desejos. Não é desprezo do corpo, mas governo do corpo pelo espírito.
Estes foram os valores, num mix variável segundo os tempos e as circunstâncias, que formataram a civilização ocidental, se encontram na raiz da sua grandeza e foram largamente dominantes até à I Guerra Mundial. São eles que se encontram na base do culto pelo valor da liberdade e pela discussão livre das opiniões e das ideias. Do respeito pelo valor intrínseco da vida humana. Do culto da verdade pela observação dos factos e pela correção dos raciocínios e dos juízos.
Estes valores, por muito estranho que possa parecer a um millenial, representam as fundações, os pilares e as traves-mestras deste edifício construído ao longo de 2.600 anos, a Europa, conjunto de nações enraizadas numa matriz axiológica a todas elas comum. O que tem esta Europa a ver com a Europa de Bruxelas e dos novos valores europeus? Nada, como veremos na próxima semana quando dissecarmos essa fraude que são os ‘novos valores europeus’.
Vice-presidente da Assembleia da República