O sistema elétrico do futuro não dependerá apenas da capacidade de produzir energia limpa, mas também da capacidade de a armazenar. Um veículo elétrico ou uma bateria doméstica poderão tornar-se fontes de rendimento e arbitragem tarifária, armazenando eletricidade quando é mais barata e descarregando-a quando as tarifas são mais elevadas. Estes ativos passarão a ser, em potência, reservatórios energéticos, por vezes móveis e dinâmicos, capazes de injetar eletricidade na rede quando necessário e de assumir um papel relevante no seu apoio e equilíbrio.
O armazenamento descentralizado de energia elétrica (em baterias), fora da lógica das grandes centrais, começa a ser muito mais do que um detalhe técnico e muito menos do que um luxo para entusiastas. Uma bateria em casa, um veículo elétrico estacionado numa garagem, uma frota eletrificada em circulação ou, num horizonte cada vez menos distante, veículos autónomos com capacidade de conexão inteligente, são cenários que apresentam uma possibilidade nova, a de termos milhares de pequenos ativos energéticos distribuídos pelo território, disponíveis para absorver excedentes quando há produção a mais e, em determinadas condições, devolver energia à rede quando ela é mais necessária. A Comissão Europeia tem vindo a sublinhar que a descarbonização do sistema exigirá mais armazenamento e mais flexibilidade, num contexto em que a potência operacional de armazenamento na Europa ronda os 66 GW e poderá atingir 132 GW até 2035, sendo precisamente nas baterias que se concentra a maior expectativa de crescimento tecnológico.
O apagão que atingiu Portugal e Espanha a 28 de abril de 2025, deixando milhões de pessoas sem eletricidade e provocando perturbações generalizadas nos transportes, nas comunicações e em vários serviços essenciais, serviu também para recordar uma evidência que tendemos a esquecer em períodos de normalidade: a de que a transição energética não é apenas uma questão de descarbonização, mas também uma questão de resiliência. O armazenamento descentralizado não substitui redes robustas, nem resolve sozinho falhas sistémicas desta dimensão, mas pode reforçar a capacidade de resposta, reduzir vulnerabilidades locais e acrescentar uma camada adicional de flexibilidade a um sistema que será inevitavelmente mais eletrificado e mais exigente.
É neste domínio que entra uma ideia ainda subestimada em Portugal: a do chamado “prosumer”, isto é, o consumidor que também é produtor, podendo armazenar, gerir, partilhar ou vender eletricidade e serviços de flexibilidade ao sistema. Esta inovação tecnológica é também uma transformação económica, porque significa que o proprietário de uma bateria doméstica ou de um veículo elétrico poderá deixar de olhar para esse ativo apenas como custo ou instrumento de mobilidade e começar a vê-lo como fonte potencial de poupança e rendimento adicional. Estamos a caminhar para um sistema em que há baterias literalmente por todo o lado, nas casas, nas garagens, nos parques de estacionamento e nas ruas, e o verdadeiro salto estratégico acontecerá quando deixarmos de olhar para essas mesmas baterias como unidades isoladas e começarmos a vê-las como uma infraestrutura distribuída, viva e mobilizável, capaz de se ligar à rede, absorver energia, prestar serviços e injetar eletricidade sempre que as condições técnicas, regulatórias e económicas o justificarem.
É precisamente aqui que os veículos autónomos podem vir a desempenhar um papel adicional particularmente interessante. Ao contrário do veículo privado convencional, que depende mais diretamente da rotina e da disponibilidade do seu proprietário, um veículo autónomo eletrificado tenderá a ser um ativo muito mais conectado, mais monitorizado e potencialmente mais disponível para decisões energéticas otimizadas, podendo carregar quando a eletricidade é mais barata ou abundante, descarregar quando o sistema precisa e integrar-se de forma muito mais automática em modelos de agregação. Não será apenas mobilidade elétrica, podendo também tornar-se armazenamento móvel, inteligente e altamente coordenável.
Os números da mobilidade elétrica mostram que esta ideia deixou há muito de ser futurista. Em Portugal, segundo a Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE), foram matriculados 7.537 veículos 100% elétricos em janeiro de 2026 e 8.067 em fevereiro do mesmo ano, num total de 15.604 veículos nesses dois primeiros meses. No plano europeu a tendência é igualmente expressiva, tendo sido matriculados 312.369 automóveis 100% elétricos na União Europeia nos dois primeiros meses de 2026, o que correspondeu a uma quota de mercado de 18,8%, acima dos 15,2% registados no mesmo período do ano anterior.
Talvez por isso a expressão latina concordia res parvae crescunt (com harmonia, até as pequenas coisas crescem) faça aqui pleno sentido, lembrando-nos que é pela harmonia (coordenação) que o que é pequeno ganha força e escala. Isolada, uma bateria doméstica vale pouco para o sistema, mas coordenadas, milhares de baterias residenciais, veículos elétricos e futuros ativos móveis autónomos podem representar uma nova forma de robustez elétrica, mais flexível, mais descentralizada e mais próxima dos consumos reais. Cada um destes veículos é, em potência, muito mais do que mobilidade. É armazenamento elétrico sobre rodas.
O risco, como tantas vezes acontece, é continuarmos a olhar para a transição energética sobretudo do lado da geração e demasiado pouco do lado da flexibilidade, quando uma parte decisiva do futuro do sistema elétrico dependerá precisamente da capacidade de coordenar milhões de pequenos ativos dispersos e de criar, para os seus proprietários, incentivos claros à participação. A transição energética não se fará apenas com mais renováveis. Far-se-á também com mais inteligência, mais armazenamento e com a capacidade de transformar consumidores em participantes ativos de uma nova ordem elétrica.
Diogo Melo Gomes (1) e Rui Costa Neto (2)
(1) Estudante de Doutoramento no Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa;
(2) Investigador no Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa / Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento (IN+)