O poder político alimenta-se de silêncios. E percebe quase sempre a discussão pública como um princípio de subversão. Um caso flagrante desse princípio foi, durante mais de meio século, a questão da imigração em massa para os países europeus.
Assumindo razões históricas, mas também por cálculo político e gestão de silêncios, a corrente dominante na classe política e na imprensa entendeu, até há pouco tempo, que qualquer debate sobre imigração era inaceitável. A simples menção do tema foi considerada, por demasiado tempo, uma falha moral e humana grave que inabilitava alguém para a opinião ou a atividade política. Entre vários exemplos, isso tornou-se evidente por ocasião de uma intervenção de Passos Coelho há quase dez anos.
A necessidade de interditos para consolidar o poder, as vistas curtas e o típico afastamento da realidade das cúpulas políticas, especialmente em tempo de mudanças, abriram assim um enorme espaço de silêncio, fértil para a mobilização política. Em política, como na biologia, os espaços sem competição são rapidamente preenchidos.
Dado que a imigração descontrolada foi provavelmente a maior alteração social na Europa desde há várias décadas, e arrisca-se a provocar uma transformação cultural e demográfica que porá em causa a identidade dos estados europeus, o eleitorado acabou por dar razão aos que, bem ou mal, encontraram aí campo político aberto. Em toda a Europa os partidos ditos populistas em poucos anos tornaram-se nas principais forças parlamentares, como o Rassemblement National e o Fratelli d’Italia em França e Itália, ou tiveram crescimento exponencial, como a AFD alemã e o Chega.
Pela força do voto, o debate tornou-se possível. Mas dois pontos estão ainda insuficientemente esclarecidos na opinião pública. Um, é a necessidade de sanear a discussão e separar o tema da imigração dos métodos demagógicos e grosseiros e das propostas mais fraturantes da direita radical. Este saneamento é tanto mais difícil quanto ele não interessa nem à direita radical, que pretende confundir o problema com as suas outras causas, nem à esquerda que, para mais facilmente identificar o inimigo à direita, prefere manter o pacote da direita radical bem fechado.
Um segundo ponto é também essencial, e tem sido insuficientemente discutido. O problema, para já principalmente nos países a norte, vê-se em estudos recentes segundo os quais uma percentagem importante das populações islâmicas na Alemanha se identifica com o islamismo político. A questão ainda por confrontar é que nas suas tradições e origens históricas essas populações não conheceram a modernidade nem a Aufklärung. Têm, por isso, relutância em aceitar um aspeto principal da condição da humanidade moderna, nomeadamente, a separação das diferentes esferas da vida. É-lhes inaceitável a tendência dos europeus para distinguir a religião do estado, da moral, da política e dos costumes, e todos estes entre si.
Quando haverá discussão pública sobre o dever de integração de populações recém-chegadas inteiramente alheias à secularização, ao exercício da crítica ou ao ateísmo que dominam parte importante das sociedades europeias? Ou que provêm de culturas que justificam com pretextos religiosos a privação dos direitos e liberdades individuais das mulheres, a quem não é reconhecida cidadania plena, e que punem a homossexualidade e a apostasia, para exemplo e instrução, com a pena de morte?
Verifica-se, felizmente menos em Portugal do que na Europa mais a norte, que uma parte importante dos imigrantes não só não pretende integrar-se, como parece ser manipulável para desprezar as culturas e as sociedades livres que os recebem, e para abusar da liberdade que encontram. Como se verifica hoje, basta, por exemplo, levar a cabo um conveniente massacre no Médio Oriente para incendiar a rua árabe e, com o apoio esquerda radical, provocar o enorme recrudescimento do antissemitismo na Europa, que se julgava praticamente erradicado.
O elefante da imigração tornou-se demasiado grande para ser ignorado, mas algumas das suas partes não estão ainda suficientemente visíveis na discussão pública.
Professor Universitário
Universidade de Coimbra