Por boas razões, os romanos prestavam culto a Jano, o deus bifronte que presidia às arcadas e aos umbrais. No entanto, com um apurado sentido da duplicidade das coisas, Jano era também o deus que velava pelos bons começos. A mitologia antiga conhecia o paradoxo, que se aplica a todas as mudanças históricas, de que toda a transição é também um começo, e que todo o começo não é mais do que uma transição.
Por isso, o icónico e inesquecível poema de Sofia de Melo Breyner sobre o 25 de Abril fala apenas de um só dia, sem considerar outro antes ou depois: «Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo».
Olhando para trás e para a frente do 25 de Abril, tem-se recordado nestes últimos dias, que não foi só no regime anterior que existiram presos políticos, arbitrariedades e o horror da tortura. A discussão atual confirma, conforme o poema, que o momento inicial e limpo durou pouco. Como todas as transições históricas, os novos começos, principalmente os revolucionários, são tudo menos novos e limpos, mas praticam com toda a convicção, e muitas vezes mais rapidamente, a mesma violência e arbitrariedade a que alegam opor-se.
Neste debate, o cerne dos argumentos de André Ventura é que o 25 de Abril nada trouxe de essencialmente novo no que toca à liberdade, e as novidades noutros campos foram negativas.
Mas Ventura não tem razão ao procurar desmontar a carga simbólica do 25 de Abril. Muitos dos que participaram, seja no PS, no PSD, no CDS ou de outro modo, assim como a grande maioria do eleitorado nas eleições para a Constituinte de 1975, tinham como projeto político as eleições livres, o fim da censura e uma democracia parlamentar semelhante à que vivemos desde 1976. O 25 de Abril permanece como símbolo desse projeto. Por isso, a sua denúncia por Ventura como início de novas opressões confunde-se com uma crítica ao projeto democrático.
Desfazer os muitos mitos e repor no conhecimento público a verdade factual acerca do período entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975 é útil para a saúde da democracia. Mas desmistificar o que precisa de ser desmistificado não deve ser confundido com a demolição do 25 de Abril como data que representou, para a maioria, um projeto de democracia representativa, pluralismo, imprensa livre e prosperidade económica.
O problema com os mitos de Abril é que os abusos, ao contrário do que pretende Pacheco Pereira, não foram excessos e descontrolos revolucionários pontuais. Os atropelos foram feitos com vista a um projeto político claro, consistente e sistemático de fundamentalismo ideológico, censura e violência como instrumentos políticos legítimos. E por confundirem o símbolo da libertação com os mitos de pureza revolucionária, parte importante da esquerda continua a não se querer demarcar totalmente desse projeto que, como provam todas as experiências onde foi tentado, era ainda pior do que o do regime derrubado em Abril de 1974.
Não menos do que as provocações de Ventura, a ambiguidade e demarcação insuficiente, por parte da geração da esquerda que já não participou na defesa da democracia em 1975, em relação a um projeto revolucionário de cariz totalitário, de estatização e destruição económica, tem exposto o 25 de Abril a uma contestação desnecessária.
Como Jano mostra, o 25 de Abril foi o começo de algo de novo, mas também uma transição histórica natural, com problemas, continuidades e ruturas. Pertence à história, e a data simbólica merece que se reconheça isso. E merece também a denúncia da cultura política que dá demasiado relevo à identificação e demonização do inimigo, esteja este de um lado ou do outro - uma cultura política primária e destruidora do futuro.