terça-feira, 16 jun. 2026

A Europa e a Deusa da Democracia

Resta-nos a expectativa de que o capital cultural acumulado durante séculos e as urgências existenciais sentidas em Bruxelas ajudem a corrigir o curso de decadência do ideal europeu e, com ele, o da democracia.

As transformações geopolíticas em curso são altamente desfavoráveis à Europa, apertada numa tenaz militar, económica e tecnológica. 

A leste, encontra-se quase sozinha no apoio à Ucrânia, enquanto a Rússia agita regularmente a ameaça nuclear, brande os seus mísseis hipersónicos, e prossegue a guerra híbrida. A oeste, Trump e Vance ameaçam abandonar a NATO. A sul, apesar do Brexit, da eleição de uma primeira-ministra dita de extrema-direita em Itália ou dos compromissos eleitorais nesse sentido na Alemanha, pouco parece ter mudado no controlo da imigração ilegal. 

Na economia, a Europa prossegue o seu processo de retração da indústria, atingida pelas tarifas americanas e a concorrência chinesa no núcleo duro do que resta dos seus setores industriais de ponta, principalmente o automóvel e, em breve, também a aeronáutica. Tecnologicamente, EUA e China lideram a maior parte da inovação. 

Enquanto os seus concorrentes e adversários apostaram nos instrumentos de poder, riqueza e influência, a Europa investiu num complexo de superioridade moral, própria de um continente que se considera ainda destinado a impor ao planeta a sua particular visão do mundo. 

Ao mesmo tempo em que condena como um execrável eurocentrismo a pretensão europeia de levar aos outros continentes a sua visão do mundo, parte importante da esquerda europeia imagina-se a desempenhar o papel de consciência moral da humanidade. 

Pretende levar a todo o globo o virtuoso exemplo de uma sociedade sacrificar, unilateralmente, a sua prosperidade para apaziguar os demónios do clima. Ou tomar sobre si o peso de todos os genocídios da história, assumindo todas as culpas da humanidade, segundo os conselhos cristãos do ancião Zóssima dos Irmãos Karamazov de Dostoievski.

A soberba moral é uma receita para o desastre. Ridiculamente, há muito poucos anos, enquanto Putin se armava até aos dentes para os seus massacres na Ucrânia e a intimidação dos europeus, os governos da Alemanha e da Suécia definiram a extraordinária prioridade de prosseguir uma política externa feminista. Ou, noutro estranho exemplo, enquanto os países do Golfo ou a Noruega (ainda resta alguma lucidez na velha Europa!) enriquecem astronomicamente e ganham influência e peso geopolítico, Portugal proibia, em 2021, quaisquer concessões para a prospeção e exploração de combustíveis fósseis. 

Como resultado inevitável dessas políticas, entre as 20 maiores empresas mundiais, encontram-se unicamente uma britânica (petróleo) e uma alemã (automóveis). Entre as 20 maiores tecnológicas, cinco são chinesas, uma de Taiwan e nenhuma europeia. 

Parecem então ter tido algum êxito as ideias dos ilustres pensadores ‘decrescionistas’, como o pioneiro Hans Jonas e outros mais recentes, que continuam a defender o decrescimento, ou seja, o empobrecimento programado das sociedades europeias. Verifica-se o óbvio, ou seja, que o empobrecimento, ainda que relativo, nunca é harmonioso, e mesmo que não seja sensível em transformações súbitas, é percebido através de crises persistentes e deslocamentos políticos profundos. Sintomas disso são o esvaziamento eleitoral das causas tradicionais da esquerda e o emergir das direitas antieuropeístas, que ameaçam tornar-se nos maiores partidos nos principais países europeus. 

Assim, na fase atual, enquanto a esquerda radical aposta na crise da civilização europeia como a mais recente esperança de vencer finalmente a sua batalha mística contra capitalismo, a direita antieuropeísta pretende retornar, em pleno séc. XXI, ao nacionalismo de estados de dimensão medieval ou moderna. 

A ambos os projetos, o da esquerda mais radical e o da direita antieuropeísta, falta qualquer sustentabilidade geopolítica. Se tivessem êxito, por uma simples questão de poder, iriam decerto perder-se na irrelevância perante os poderes incomparavelmente maiores do séc. XXI.

Assim como Palas Atena, a protetora da democracia e da filosofia europeias, nasceu já armada de uma dor de cabeça de Zeus, resta-nos a expectativa de que também o capital cultural acumulado durante séculos e as urgências existenciais sentidas em Bruxelas, Paris e Berlim na defesa, na energia e nos setores chave da economia do futuro ajudem a combater as ameaças ao ideal europeu e, com ele, à democracia.