Desafios para 2026

Aos elementos da minha classe faço o meu apelo: médicos sejam médicos! Já lá vai o tempo em que os médicos eram respeitados e a sua opinião nem sequer posta em causa.

Entrámos no Novo Ano! Nele depositamos as nossas legitimas expectativas as nossas esperanças, os nossos sonhos. Um ano que se apresenta cheio de desafios, tanto no setor politico como no económico, no social e até no plano desportivo apesar da conjuntura internacional não ser de todo favorável. De facto, o mundo em que vivemos, parece estar virado do avesso e obriga-nos a olhar para ele com prudência e apreensão. Passámos a ter de conviver com permanentes conflitos entre povos onde a paz é cada vez mais difícil de atingir, a não poder ignorar ‘os comportamentos desviantes’ numa sociedade decadente e a ter de aceitar os fenómenos naturais espalhados pelo planeta, de que antigamente não se falava e que hoje são noticia a toda a hora. Não sou sociólogo e, por isso, não me compete a mim analisar a evolução da sociedade, nem o caminho que os homens têm seguido, mas, como cidadão e profissional de saúde, tenho também uma palavra a dizer. Olhando para o país muita coisa me preocupa e daí o meu alerta. Cito alguns exemplos: há que tomar providências para acabar com o flagelo da violência doméstica que não pára de aumentar. Dados recentes dizem-nos que mais de 30% é de filhos contra pais, tendo subido de 5,6% em 2004 para 30% em 2025. Durante o namoro inúmeros casos foram denunciados e mais tarde, entre casais, atinge números assustadores. Talvez a ausência da família, as novas formas de viver na sociedade ou a existência de doenças mentais associadas possam explicar esta lamentável situação, mas, mais do que diagnósticos, o que precisamos é de terapêutica. É urgente. A corrupção é um mal que veio para ficar. Não há semana que não sejamos ‘presenteados’ com novos casos que nos envergonham, principalmente por não sermos capazes de encontrar soluções para os combater. Será possível conformarmo-nos com enriquecimentos ilícitos quando se sabe que a maioria da população portuguesa vive com graves dificuldades económicas e muita gente no limiar da pobreza? No meu setor, o da saúde, muitos desafios serão lançados e era bom que os responsáveis estivessem atentos e tirassem as devidas conclusões. Vamos prosseguir na linha do ‘mais do mesmo’, isto é, continuar a remediar sem conseguir prevenir? Como se explica ter de se pagar muito mais a médicos tarefeiros não começando primeiro por recorrer àqueles que já estão no terreno? O que pensar de um sistema que faz com que um doente no serviço de urgência tenha de esperar setenta e duas horas para ser atendido? Por que razão muitas parturientes deixaram de ‘ter direito’ aos partos feitos em condições normais e com a dignidade que se exige? Muito se tem falado sobre o cumprimento da lei que regula a Interrupção Voluntária da Gravidez, mas pouco se discute sobre a falta de consultas de fertilidade, ficando para segundo plano os casais que querem ter filhos, ainda mais para num país como Portugal onde a natalidade é baixíssima. Vale a pena pensar nestes problemas e procurar soluções.

Aos elementos da minha classe faço o meu apelo: médicos sejam médicos! Já lá vai o tempo em que os médicos eram respeitados e a sua opinião nem sequer posta em causa.

Hoje a sociedade vê-nos com alguma desconfiança e apontam-nos o dedo, por vezes com razão. A nossa única preocupação deve ser o doente e cabe-nos a nós, com o nosso procedimento, dar o exemplo daquilo em que acreditamos.

Partilho estas reflexões no inicio do ano que agora começa. Um ano repleto de desafios onde cada um, à sua maneira, pode e deve intervir numa perspetiva de serviço cívico. Àqueles com responsabilidades diretas em cada setor exige-se uma outra atitude. ‘Palavras leva-as o vento’. Precisamos é de obras. Já perdemos tempo demais com projetos falhados, promessas não cumpridas e oportunidades não aproveitadas. Não deixemos fugir 2026 nem os desafios que ele traz consigo. Mãos à obra!

Para todos os leitores ficam os meus votos de um Novo Ano onde os desejos se concretizem, os sonhos se tornem numa verdadeira realidade e a esperança nunca acabe.

 

Médico