segunda-feira, 09 mar. 2026

As Tempestades, a Biomassa, o Sistema Elétrico e o Interior

As centrais elétricas a biomassa constituem uma ‘potência firme’, ou seja, que pode ser produzida sempre que seja necessário. Ao contrário das potências intermitentes, solares e eólicas, que necessitam de sistemas de backup e de ‘armazenagem indireta’ para não provocarem apagões, como o que afetou a Península Ibérica.

Após as graves tempestades que devastaram a região centro, é importante apresentar soluções que contribuam para uma mais eficaz e sustentável coesão territorial.

Uma das consequências mais relevantes dos ciclones do passado dia 28 de Janeiro, foi a quantidade de árvores derrubadas pelo vento, pelo que muitos milhares de toneladas de biomassa se encontram agora espalhadas por estes territórios.

Promover a rápida recolha desta biomassa é da maior urgência pois, dentro de três meses, no próximo mês de Maio começará a época de incêndios.

Nunca, como neste momento, foi tão urgente a construção de Parques de Recolha de Biomassa, financiados pelo Fundo Ambiental, onde os proprietários possam colocar esta biomassa que é uma séria ameaça para a propagação dos incêndios, sempre que mãos criminosas provoquem ignições.

Consciente da gravidade da situação, o grupo Navigator já anunciou que paga a madeira fina/biomassa entregue nas suas fábricas, o que, embora seja um apoio aos proprietários florestais, aumenta muito o respetivo custo logístico dadas as distâncias até às fábricas.

Por isso os Parques de Biomassa têm de ser entrepostos situados nos concelhos de maior densidade florestal, a fim de poderem depois abastecer todos os utilizadores desta madeira/biomassa.

Assim se transformará uma ameaça de destruição, através de incêndios criminosos, numa enorme oportunidade, quer para a fileira industrial a jusante, quer para o respetivo aproveitamento energético.

Esta mesma preocupação tinha já sido assumida pelo Governo através do Dec. Lei 64/2017 e depois da Portaria 425/2025 que o veio regulamentar, infelizmente só 8 anos mais tarde.

A logística criada a partir dos Parques de Biomassa, dinamizará o abastecimento das indústrias da fileira florestal, e também das Centrais Elétricas, das caldeiras de vapor e dos recuperadores de calor que utilizem biomassa, quer em empresas quer em residências.

A concretização destes Parques de Biomassa exige a vontade política dos ministros da Economia e Coesão Territorial, e do Ambiente e Energia, em coordenação com a Unidade de Missão agora criada para recuperar o País das recentes tempestades.

Sem a mobilização urgente de recursos, a começar pelos do Fundo Ambiental, estaremos em breve a lamentar mais vítimas e destruições provocadas por incêndios rurais no Verão.

É fundamental recordar que as centrais elétricas a biomassa constituem uma ‘potência firme’, ou seja, que pode ser produzida sempre que seja necessário. Ao contrário das potências intermitentes, solares e eólicas, que necessitam de sistemas de backup e de ‘armazenagem indireta’ para não provocarem apagões, como o que afetou a Península Ibérica a 28 de Abril de 2025.

As prioridades políticas relativamente ao Sistema Elétrico, têm de privilegiar a eficácia ao serviço de todos os portugueses, e não apenas de alguns.

De acordo com o Relatório de Aquisição de Eletricidade em 2024, os consumidores pagaram nesse ano 1,8 milhares de milhões de euros de sobrecustos por ‘tarifas politicamente garantidas’, a grande maioria das quais, 1,3 mil milhões de euros, a potências intermitentes, eólicas e solares.

Sendo que 40 destes Contratos ‘políticos’ concedidos a potências intermitentes pelo governo Sócrates se irão prolongar ainda para além de 2034, com os consumidores a pagar este tipo de sobrecustos até 2039. Em alternativa, a descarbonização do nosso Sistema Elétrico deve dar prioridade às Centrais a Biomassa que evitam, através da limpeza das florestas, a propagação dos incêndios rurais e a consequente emissão de milhares de toneladas de CO2 .

Quatro vertentes fundamentais para o desenvolvimento económico e social do nosso país estão profundamente interligadas:

1. A viabilização económica da limpeza de terrenos rurais do Interior;

2. Um Sistema Elétrico mais descarbonizado e seguro;

3. A competitividade das indústrias a jusante das florestas;

4. O combate preventivo aos incêndios rurais.

E é isso que a instalação urgente dos Parques de Recolha de Biomassa irá promover!

As recentes tempestades foram um choque para todos os portugueses, mas devem ser também um solavanco que conduza a um País que transforma ameaças em oportunidades, para ser mais próspero e mais coeso.

Professor Catedrático do Instituto Superior Técnico,
Membro do Conselho de Indústria e Energia da SEDES

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