Em 1385, na Batalha de Aljubarrota, a tática do quadrado permitiu ao exército português, liderado por D. Nuno Álvares Pereira, vencer o exército espanhol, de muito maior poderio militar. A inteligência, preparação e leitura da situação compensaram a inferioridade numérica. E Portugal garantiu não só a sua independência, como abriu caminho a um período de afirmação política, crescimento económico e inovação.
No atual contexto de instabilidade geoeconómica, em que o futuro se apresenta como um enigma difícil de decifrar, as lições do passado tornam-se particularmente relevantes. Tal como em Aljubarrota, importa compreender a nossa posição no “campo de batalha” global e definir com clareza que território queremos proteger: a estabilidade económica, o poder de compra das famílias e a competitividade das empresas.
A tática do quadrado mostrou-nos que, por vezes, uma estratégia defensiva pode ser o melhor ataque. No plano económico, isso traduz-se na necessidade de atuar preventivamente: implementar políticas de proteção e estabilidade, antecipar choques energéticos e inflacionistas e salvaguardar setores-chave. Construir este “quadrado” económico implica reforçar reservas, diversificar fontes de energia e garantir mecanismos de resposta rápida.
De Espanha vêm bons ventos de inspiração. A redução do IVA nos combustíveis, na eletricidade e no gás natural, aliada ao investimento na eletrificação e descarbonização da economia, constitui uma resposta clara e estruturada. Estas medidas não só mitigam os impactos imediatos da crise, como projetam o país para uma maior soberania energética, um objetivo estratégico que Portugal não pode ignorar.
Também em Portugal, apoiar setores como os transportes, o turismo e a agricultura, particularmente expostos ao aumento dos custos energéticos, será essencial para preservar o equilíbrio do tecido económico.
Fortalecer o país perante as ondas de choque dos conflitos internacionais é imperativo. E elas vão-se fazer sentir independentemente da duração do conflito no Médio Oriente. O novo normal torna a economia vulnerável a todo o tipo de ameaças e é necessário atuar com estratégia para conter os danos. A inação pode ter custos elevados.
Ainda assim, importa reconhecer que proteção não significa isolamento. A própria batalha de 1385 reforçou a mais antiga aliança diplomática do mundo, entre Portugal e Inglaterra, consolidada no Tratado de Windsor.
Mesmo em posição defensiva, a cooperação é decisiva. No plano geoeconómico, Portugal deve reforçar o seu posicionamento estratégico, valorizando o seu papel de ponte entre a Europa, a África e a América do Sul. Só assim será possível transformar uma estratégia defensiva numa base sólida para crescimento futuro.
Porque, tal como em Aljubarrota, não vence quem tem mais força, mas quem melhor se prepara para resistir.