Senhora da Agonia. Viana do Castelo. Mil mulheres alinham-se no tradicional Desfile da Mordomia. Há uma imagem que diz muito sobre o que acontece nestes dias na cidade minhota: a dimensão transgeracional de uma festa que se repete e se reflete ao longo de toda a Romaria. Da longa noitada a desenhar Tapetes de Flores ao Cortejo Histórico-Etnográfico, com mais de 3.000 participantes, a tradição celebra-se num verdadeiro cordão humano, sem idade ou classe social, aberto a quem dele quiser fazer parte. “Somos Todos Romaria” é o lema, tornado hashtag e apropriado pelos milhares de pessoas que, por estes dias, encheram as ruas de Viana do Castelo.
Há aqui algo que vai muito além da preservação de uma tradição. Celebra-se um sentimento de comunidade, identidade e pertença. E talvez seja isso que torna particularmente interessante o fenómeno das romarias portuguesas. Numa altura em que tanto se fala de identidade nacional, estas manifestações mostram-nos que a identidade não tem de ser um exercício de exclusão. Pode ser feita de abertura e diversidade. Ou não fosse esta também a época do regresso dos emigrantes: este ano, só no Desfile da Mordomia participaram mulheres de oito países da diáspora.
A Romaria torna-se, assim, ponto de confluência entre locais e visitantes, emigrantes e imigrantes, jovens e seniores, que encontram ali uma linguagem comum.
Mas não é apenas a Romaria que vive um novo ciclo. O folclore português, na sua verdadeira aceção, o ‘saber do povo’, parece estar a ser redescoberto por uma geração à procura de raízes e autenticidade. A Vogue Portugal dedicou a sua última edição a este ‘verão português’, servido nas tascas e esplanadas, nos dias longos de praia, nos arraiais e nas festas populares, retratado com um realismo cru, livre de condescendência.
O potencial vai muito além da recuperação de uma identidade cultural. O que durante anos desdenhámos como provinciano, datado ou preso ao passado pode revelar-se um dos nossos maiores ativos de desenvolvimento económico e atração turística.
Com as festas populares, ressurge a procura pelos lenços de Viana, as camisolas bordadas, a cerâmica tradicional, os cestos de vime, a filigrana. Símbolos culturais, que voltam a entrar no circuito do consumo e da moda, sobretudo impulsionado pelas gerações mais novas, trazendo uma esperança de revitalização de artes e ofícios quase perdidos pela falta de procura e mão de obra.
A nível de turismo, podemos bem aprender com os exemplos internacionais. Em Espanha, a Feria de Sevilha ronda os 2,4 milhões de visitantes, com uma ocupação hoteleira de 89% e um impacto económico estimado em mil milhões de euros. Na Feria de Málaga deste ano, 71% dos visitantes eram internacionais. E há o Ferragosto italiano: uma celebração nacional desse imaginário do dolce far niente, que este ano atraiu 17,5 milhões de turistas, com despesas na ordem dos nove mil milhões de euros.
Num mercado cada vez mais competitivo e indiferenciado, o folclore tem uma vantagem extraordinária: não pode ser replicado. Nasceu de um lugar, de uma história e, sobretudo, de pessoas. E essa humanidade, mais do que qualquer tradição, talvez seja aquilo que nunca passa de moda.