No sábado comemorou-se o Dia da Europa e, à força das atuais condicionantes geopolíticas, o Velho Continente viu-se obrigado a redefinir alianças e prioridades. Aquilo que outrora parecia uma engrenagem enferrujada ressurge agora impulsionado por novos acordos multilaterais e por um alinhamento crescente entre países intermédios, os chamados ‘middle powers’, que procuram ganhar espaço num mundo dominado pela tensão entre grandes potências.
Na semana passada, a Comunidade Política Europeia reuniu-se na Arménia, num encontro simbólico da crescente aproximação europeia ao Cáucaso e da vontade de construir novas pontes políticas e económicas. Em paralelo, o acordo UE-Mercosul avançou finalmente, ainda que de forma provisória, mais de duas décadas depois do início das negociações.
A Europa começa, assim, a assumir uma posição mais clara no tabuleiro geopolítico. E fá-lo recorrendo àquilo que talvez seja a sua mais eficaz arma: a diplomacia. Uma diplomacia moldada pela memória histórica de um continente que conheceu as guerras mais devastadoras da humanidade e que aprendeu, precisamente por isso, o valor estratégico da estabilidade, da cooperação e da negociação.
Ao deixar os gigantes digladiarem-se entre si, sem nunca abdicar de tomar posição, a Europa afirma-se como construtora de pontes. É aí que reside hoje a sua relevância. Não apenas na força militar ou económica, mas na capacidade de criar redes, alianças e interesses comuns entre geografias distintas.
Para Portugal, este momento deveria servir também de reflexão estratégica. Celebram-se quatro décadas de adesão europeia, um percurso decisivo para a modernização do país. Mas o mundo mudou. O centro de gravidade económico desloca-se, novas rotas comerciais consolidam-se e a internacionalização portuguesa não pode continuar excessivamente concentrada nos mesmos mercados e dependências.
É precisamente aqui que reside a oportunidade. Portugal reúne condições singulares para reforçar a sua relevância no contexto europeu e global. A posição atlântica, as ligações históricas e culturais à América do Sul, África e partes da Ásia, bem como a capacidade de diálogo com diferentes geografias, conferem ao país um potencial diferenciador numa Europa que procura novas centralidades.
Importa perceber também em que áreas estratégicas estas novas alianças estão a ser desenhadas. A inteligência artificial, a energia, a soberania tecnológica e as cadeias de abastecimento passaram a representar muito mais do que temas económicos: representam influência política, autonomia estratégica e capacidade de afirmação internacional.
Portugal não parte do zero. A crescente atração de investimento tecnológico, a qualidade das universidades e a capacidade de gerar talento colocam-nos numa posição interessante. Mas o verdadeiro desafio está em transformar estas vantagens numa estratégia nacional consistente, capaz de articular economia, diplomacia e visão geopolítica.
Neste contexto, poucas vozes políticas portuguesas têm insistido tanto nesta visão estratégica como Paulo Portas. O antigo vice-primeiro-ministro tem defendido de forma consistente uma diplomacia económica mais ativa, diversificada e pragmática, lembrando que países como Portugal só mantêm relevância se forem capazes de estar presentes onde o mundo cresce, investe e se transforma. A sua leitura sobre o novo equilíbrio global merece atenção: num tempo de fragmentação e competição geoeconómica, os países médios só sobrevivem se forem inteligentes nas alianças, rápidos na adaptação e ambiciosos na sua projeção externa.
No final, a metáfora mantém-se atual. Como país de navegadores, Portugal deve saber velejar a favor dos ventos e das marés e, mesmo partindo de uma posição de menor poderio, saber ler a corrente e encontrar, neste novo mapa do mundo, o seu lugar.