terça-feira, 21 jul. 2026

Não choremos mais sobre o vinho derramado  

Traçam-se novos caminhos para o vinho português, mas todos eles exigem de um setor conservador, que se reinvente e se adapte. Que flexibilize e se dispa das suas próprias amarras e narrativas fechadas e se reencontre com o consumidor à mesa.

O consumo global de vinho continua a baixar e esta é uma tendência irreversível. O mundo está a mudar, o consumidor já mudou e o mercado do vinho parece irremediavelmente avesso à mudança. Mas se até o vinho muda com o tempo, não estará no tempo de mudarmos a mentalidade dos vinhos também?  

Nem tudo é água ou vinho nesta discussão. Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o consumo de vinho está a decair, sim, mas Portugal navega na direção inversa, com o maior volume de consumo alguma vez registado, sendo um dos poucos grandes mercados de vinho da União Europeia onde isso se verifica. 

Ora, aqui está a primeira importante reflexão. O mercado interno sempre foi importante para o setor, mas enquanto país produtor, a competição é acérrima. Também aqui é importante flexibilizar e inovar para criar espaço. Primeiro, escutando mais o mercado. Os produtores parecem, por vezes, demasiado inebriados pelas suas próprias narrativas. Mas será que elas seduzem o consumidor atual? Quem é responsável pelo crescimento do consumo e como é que este consumo está a ser feito? 

É inevitável percebermos o impacto do turismo. Se o vinho deixa de ser regra e passa a ser exceção é nas viagens que a exceção se torna regra e, de facto, ganhamos um novo mercado interno com grande dinamismo. Mas olhemos mais fundo: onde é que este consumo está a ser feito? Quem está, de facto, a dinamizar o consumo? Mesmo para quem observa o setor de fora, é impossível ignorar a proliferação de wine bars. Esplanadas cheias. Copos de vinho na mesa. Um perfil de consumo e de vinho diferente. Menos gastronómico, mais experimental, relacional, mais descontraído. 

Neste campo, é importante ressaltar os bons exemplos de flexibilidade no setor. A Kopke a mais antiga casa de vinho do Porto, decidiu, literalmente, quebrar o gelo sobre o tema e apresentar uma nova forma de consumo, que descompromete o consumo ritualístico de vinho do Porto, colocando-o à mesa e no centro das conversas. 

E se vamos falar sobre descontração e quebra de preconceitos, a Niepoort continua a desafiar as fronteiras do convencionalismo vínico. O Nat’Cool Bag-in-Box é um exemplo de frescura no setor, que tira o vinho da prateleira e o coloca de copo em copo, convidando à partilha e a uma relação menos comprometida com a compra de uma garrafa. 

Os mesmos dados da OIV mostram outro país em destaque, o Brasil, onde o consumo de vinho aumentou 41,9%. É a maior subida a nível mundial. Aqui está a segunda reflexão. O mercado brasileiro é recente no mundo dos vinhos o que nos permite um ‘começar de novo’ na direção certa. Nos últimos anos, o turismo brasileiro deu um forte impulso ao enoturismo. Apaixonaram-se pelos nossos vinhos e são agora consumidores cada vez mais fiéis. Mas a concorrência cresce com o interesse e o ainda jovem, mas promissor, crescimento do mercado produtor brasileiro é uma ameaça. O Acordo Mercosul-União Europeia vem abrir uma gigante janela de oportunidade para um mercado não só de grande proximidade e familiaridade cultural, como grande apreciador dos nossos vinhos, quase ao nível da idolatria. Precisamos de um mercado entusiasmado para recuperar o entusiasmo nacional. 

Traçam-se novos caminhos para o vinho português, mas todos eles exigem de um setor conservador, que se reinvente e se adapte. Que flexibilize e se dispa das suas próprias amarras e narrativas fechadas e se reencontre com o consumidor à mesa. Do bar, da tasca, do boteco. Que converse, que olhe o consumidor nos olhos e realmente o escute. Como um bom amigo. E que se torne mais leve - não só no álcool, mas também na atitude.