segunda-feira, 17 ago. 2026

Já se juntou a um run club? Deveria. E não, este não é um artigo sobre corrida

Estas comunidades atraem pessoas, fortalecem identidades e ajudam a construir a imagem do território. Ignorá-las é desperdiçar uma energia que já está a transformar o espaço urbano.

Cerveja sem álcool, retiros de yoga, running clubs ou torneios de padel. As dinâmicas sociais estão a mudar e a transitar para formas de interação mais saudáveis. Vivemos num país habituado a reunir-se à mesa, onde a gastronomia e o vinho conquistaram um protagonismo que continua a ser um dos grandes ativos da nossa identidade e promoção. Mas vale a pena perceber como as novas gerações estão a redesenhar os encontros sociais e a criar comunidades assentes em novas formas de estar.

Importa um disclaimer: a minha filha, Mia Santos, gere o Porto Can Run Club e foi através dela que descobri este admirável mundo novo. Desde o início, definiu-o não como um movimento desportivo, mas como um movimento social. E isso mudou a minha forma de olhar para os run clubs. Não falamos apenas de exercício físico, mas de uma nova dinâmica de relação entre pessoas. As novas gerações trocaram a pista de dança pela pista de corrida. Mudou o cenário, mas o objetivo mantém-se: conhecer pessoas, criar ligações e desfrutar do momento.

E vai muito além da corrida. O padel é outro exemplo evidente. Quem entra numa academia percebe rapidamente que não é apenas um desporto, mas uma comunidade que encontra nos treinos e torneios uma forma de convivência e pertença.

Há, contudo, um aspeto dos run clubs que merece especial atenção: a sua ligação ao território. Muitos adotam o nome da cidade porque uma comunidade não existe desligada do lugar onde vive. No Porto Can Run Club, como acontece noutros, a corrida termina frequentemente em cafés, pizzarias, rooftops ou até barcos no Douro. O resultado é um duplo impacto: reforça a componente social da experiência e cria oportunidades para o comércio, a restauração e a cultura locais.

Aqui está uma oportunidade para quem pensa as cidades. Estas comunidades atraem pessoas, fortalecem identidades e ajudam a construir a imagem do território. Ignorá-las é desperdiçar uma energia que já está a transformar o espaço urbano.

Mais do que isso, os run clubs criam redes entre cidades através de corridas colaborativas que juntam comunidades de diferentes territórios. É gestão urbana a acontecer de baixo para cima, das pessoas para as pessoas. Aos municípios cabe reconhecer, apoiar e potenciar estes movimentos, em vez de tentarem criá-los artificialmente.

As marcas já perceberam o fenómeno. Cervejas sem álcool, equipamentos desportivos, beleza ou energia associam-se a estas comunidades porque compreendem o valor de momentos vividos com elevados níveis de endorfina, serotonina e oxitocina. As emoções positivas geradas nesses encontros acabam por se refletir na perceção das próprias marcas.

E esta é apenas a linha de partida. Não estamos perante uma moda passageira, mas perante uma mudança profunda na forma como as novas gerações constroem relações e vivem as cidades. Mais vale entrar na corrida. Eu já o fiz, no Dia da Mãe, e posso dizer que foi uma das experiências sociais mais genuínas que vivi nos últimos anos. Vemo-nos na pista?