segunda-feira, 18 mai. 2026

Governar não é escolher um lado

Durante demasiado tempo, aceitámos uma visão ingénua da atração de investimento. Como se bastasse criar condições para que o capital entrasse, sem pensar no que acontece quando ele sai. E isso tem custos. Custos reais. Territórios fragilizados. Emprego instável. Economias locais expostas a decisões externas.

Durante anos, fomos levados a acreditar que governar um país implicava escolher um lado. Ou conservadores, ou liberais, ou progressistas. Como se a complexidade do mundo pudesse ser reduzida a uma única lente ideológica.

Essa lógica está ultrapassada.

Hoje, os países que se afirmam não são os mais fiéis a uma doutrina. São os mais inteligentes na forma como combinam aquilo que funciona. E essa combinação exige maturidade política, não dogma.

O conservadorismo traz a capacidade de preservar aquilo que tem valor comprovado: a identidade cultural, o património, os modos de vida, os laços que estruturam a sociedade. Num mundo cada vez mais indiferenciado, aquilo que nos distingue é também aquilo que nos torna relevantes. A nossa identidade é o nosso fator competitivo, que deve ser protegido e valorizado.

Mas não nos iludamos: preservar não chega.

O progresso traz visão de futuro e abertura ao novo. A inovação, a tecnologia, a capacidade de adaptação são hoje determinantes para qualquer país que queira existir com relevância no cenário internacional. Recusar o futuro não protege, enfraquece.

E depois há o liberalismo. A liberdade económica como motor de crescimento, de atração de investimento e de criação de oportunidades. Portugal precisa de ser competitivo, aberto e ambicioso.

Mas há uma diferença entre liberdade e ausência de regras.

Durante demasiado tempo, aceitámos uma visão ingénua da atração de investimento. Como se bastasse criar condições para que o capital entrasse, sem pensar no que acontece quando ele sai. E isso tem custos. Custos reais. Territórios fragilizados. Emprego instável. Economias locais expostas a decisões externas.

É tempo de mudar essa lógica.

Sim, devemos ser fiscalmente competitivos. Sim, devemos atrair investimento. Mas com regras claras: compromisso de permanência, responsabilidade territorial, previsibilidade na saída. Um país não pode ser apenas um ponto de passagem. Tem de ser um lugar de construção.

Dar, mas também exigir.

Governar é equilibrar interesses e usar as regras a favor de uma visão estratégica. Preservar o que nos define. Inovar no que nos projeta. Liberalizar o que nos faz crescer com responsabilidade.

Recusar esta síntese é continuar preso a debates estéreis. Assumi-la é dar um passo em frente.

Porque o futuro não pertence aos que escolhem um lado, mas aos que se sabem adaptar, moldar às circunstâncias e ter o sentido crítico de tomar decisões que respondem, com flexibilidade, à complexidade de um mundo em contante mudança e evolução.l