A crise do multilateralismo deixou de ser um debate académico para se tornar um facto político. Mark Carney não trouxe uma solução, mas uma reflexão importante que se estendeu à opinião pública. Hoje, todos nos questionamos: qual é o nosso lugar à mesa e o que está na bandeja a ser servido?
Portugal tem a vantagem de estar integrado num poder médio, a União Europeia, mas com a desvantagem de ser um poder menor no centro de decisão e, por isso, ver a sua autonomia estratégica condicionada pelos restantes membros.
No entanto, é essencial olharmos para as dinâmicas que se estão a formar na esfera global e perceber o que nos estão a servir no prato.
O acordo Mercosul-UE, que apesar dos avanços e recuos se configura como uma possibilidade cada vez mais real, e o recente acordo com a Índia ganham uma dimensão que vai além do comércio. Representam uma estratégia clara da União Europeia em mexer no tabuleiro do multilateralismo político e económico, afastando-se dos grandes blocos que a colocam numa posição de fraqueza e reforçando e diversificando relações de força com mercados emergentes.
Falamos de mercados de 270 milhões de pessoas, no Mercosul, e cerca de 1,5 mil milhões na Índia. Acordos que trarão benefícios transversais para diversos setores da economia – tecnologia, energia, alimentação e vinhos, setor automóvel, bem como outros setores de grande importância estratégia, como defesa, transição climática, cultura, turismo e tantos outros.
E, qual jogo das cadeiras, é tempo dos países se posicionarem para conquistar um lugar à mesa.
Não somos um país de grande escala, mas podemos ser um país de ligação. Portugal possui uma posição atlântica estratégica e mantém relações históricas e culturais profundas com a América do Sul, especialmente com o Brasil, assim como com a Ásia, em particular com a Índia. Esta combinação abre uma oportunidade única para nos afirmarmos como ator estratégico nas futuras relações comerciais e políticas e como um hub operacional. O que perdemos em dimensão económica, ganhamos em capacidade diplomática.
Para as empresas, o enorme potencial destes mercados traz também desafios competitivos significativos. Nesse contexto, o papel das associações empresariais e setoriais será determinante. É essencial criar estruturas coletivas que permitam às nossas empresas ganhar escala e mitigar riscos. Alguns setores apresentam vantagens claras na relação com estes mercados: o calçado, que há muito explora oportunidades na América do Sul; os vinhos, o azeite e a cortiça; a indústria metalomecânica e farmacêutica; e até o turismo, que se beneficiará da aproximação comercial, do aumento da circulação de pessoas e do reforço das ligações aéreas. Nestes setores, a cooperação interna e setorial será decisiva para enfrentar os desafios globais.
De todas as incertezas que nos rodeiam, resta uma certeza: que o multilateralismo se vai construir com negociações permanentes, jogos diplomáticos intensos e nem sempre transparentes e de muita imprevisibilidade. Portugal tem aqui uma escolha clara: assistir à reorganização global como espetador periférico ou assumir-se como ator útil num multilateralismo pragmático, feito de pontes, alianças e inteligência estratégica.
É altura de nos sentarmos à mesa e servirmos o nosso melhor vinho.