sexta-feira, 15 mai. 2026

Bottom-up: nas cidades do futuro, a unidade é quem mais ordena

25 de Abril de 1974, o povo saiu às ruas e ordenou um novo regime político no país. Hoje, a revolução também acontece nas ruas, liderada por pessoas e movimentos que reconfiguram a forma de pensar e viver as cidades. As comunidades estão na rua. E são elas que mais ordenam

Durante demasiado tempo, gerimos as cidades ao contrário. Seguimos uma lógica ‘top-down’, muitas vezes bem-intencionada, mas distante da realidade: grandes projetos, requalificações extensas, estratégias de branding urbano pensadas para posicionar cidades no mapa global.

As cidades continuam a ser pensadas para as pessoas, mas não com as pessoas. O resultado está à vista: cidades que cresceram, mas perderam identidade; que atraem investimento, mas afastam quem lá vive; que funcionam como cenário, mas deixam de funcionar como lugar.

O futuro urbano não se constrói de cima para baixo. Constrói-se a partir de quem vive a cidade: comunidades, rotinas, relações, cultura. É um processo ‘bottom-up’, onde a política não impõe, facilita, escuta e cria condições. Como um treinador de bancada num jogo que já está a acontecer.

Como defendia Jane Jacobs, é na escala humana que a cidade ganha vida. Nenhum plano substitui a inteligência coletiva de uma comunidade.

Há uma regra simples: nenhum plano sobrevive se não for validado pelo uso.

Talvez por isso, cidades como Copenhagen ou Medellín evoluíram ao escutar as suas comunidades. Em contraste, Forest City na Malásia, tornou-se o exemplo do oposto: uma cidade perfeita no papel, mas sem vida real. Uma cidade construída de cima para baixo, que nunca chegou verdadeiramente a acontecer.

Isto não é falta de visão. É exigir mais da visão: políticas que facilitam, não que impõem.

Num mundo onde tudo se replica, o que se torna raro é a identidade, aquilo que não pode ser copiado nem deslocado.

Portugal pode ser uma incubadora desta nova forma de pensar cidades. Ainda temos escala humana, identidade, relação entre espaço e comunidade. Mas enfrentamos sinais claros de desequilíbrio: pressão turística, perda de habitação, homogeneização.

A escolha é clara.

Podemos continuar a desenhar cidades para fora. Ou podemos ter a coragem de as construir a partir de dentro.

O futuro das cidades não se decide nos gabinetes.

Decide-se nas ruas. Tal como há 52 anos.