Durante demasiado tempo, gerimos as cidades ao contrário. Seguimos uma lógica ‘top-down’, muitas vezes bem-intencionada, mas distante da realidade: grandes projetos, requalificações extensas, estratégias de branding urbano pensadas para posicionar cidades no mapa global.
As cidades continuam a ser pensadas para as pessoas, mas não com as pessoas. O resultado está à vista: cidades que cresceram, mas perderam identidade; que atraem investimento, mas afastam quem lá vive; que funcionam como cenário, mas deixam de funcionar como lugar.
O futuro urbano não se constrói de cima para baixo. Constrói-se a partir de quem vive a cidade: comunidades, rotinas, relações, cultura. É um processo ‘bottom-up’, onde a política não impõe, facilita, escuta e cria condições. Como um treinador de bancada num jogo que já está a acontecer.
Como defendia Jane Jacobs, é na escala humana que a cidade ganha vida. Nenhum plano substitui a inteligência coletiva de uma comunidade.
Há uma regra simples: nenhum plano sobrevive se não for validado pelo uso.
Talvez por isso, cidades como Copenhagen ou Medellín evoluíram ao escutar as suas comunidades. Em contraste, Forest City na Malásia, tornou-se o exemplo do oposto: uma cidade perfeita no papel, mas sem vida real. Uma cidade construída de cima para baixo, que nunca chegou verdadeiramente a acontecer.
Isto não é falta de visão. É exigir mais da visão: políticas que facilitam, não que impõem.
Num mundo onde tudo se replica, o que se torna raro é a identidade, aquilo que não pode ser copiado nem deslocado.
Portugal pode ser uma incubadora desta nova forma de pensar cidades. Ainda temos escala humana, identidade, relação entre espaço e comunidade. Mas enfrentamos sinais claros de desequilíbrio: pressão turística, perda de habitação, homogeneização.
A escolha é clara.
Podemos continuar a desenhar cidades para fora. Ou podemos ter a coragem de as construir a partir de dentro.
O futuro das cidades não se decide nos gabinetes.
Decide-se nas ruas. Tal como há 52 anos.