Há poucos dias regressei de Basileia, onde acompanhei mais uma edição da Art Basel, hoje reconhecida como a principal feira internacional de arte contemporânea. Durante uma semana, a cidade suíça recebe galerias de todo o mundo, artistas, colecionadores, curadores, museus, fundações e milhares de visitantes. Mas o maior ensinamento da Art Basel não está apenas dentro dos pavilhões da feira. Está na forma como um projeto cultural consistente conseguiu transformar, ao longo de mais de cinco décadas, a identidade de uma cidade.
Tudo começou em 1970, quando Ernst Beyeler, Trudl Bruckner e Balz Hilt imaginaram uma feira internacional capaz de colocar Basileia no centro do mercado global da arte. A ambição era grande, mas a visão era ainda maior. Não pretendiam apenas organizar um evento de sucesso; pretendiam criar uma instituição com capacidade para crescer, adaptar-se e permanecer relevante ao longo do tempo.
Cinquenta e seis anos depois, percebe-se que o verdadeiro legado da Art Basel vai muito além do mercado da arte.
Ao longo de décadas, a feira foi moldando a própria cidade. Basileia tornou-se um lugar onde a arte deixou de ser apenas uma programação cultural para passar a fazer parte da identidade coletiva. Multiplicaram-se museus, fundações privadas, galerias, ateliers, residências artísticas, escolas e espaços dedicados ao design e à arquitetura. A cidade passou a atrair criadores, colecionadores, profissionais das indústrias criativas e empresas que encontraram naquele ecossistema um ambiente fértil para inovar.
Esse talvez seja o maior impacto de uma iniciativa desta natureza: criar um contexto onde a criatividade deixa de ser exceção para se tornar parte da economia e da vida urbana.
Também o turismo se transforma. Quem visita Basileia durante a Art Basel procura muito mais do que uma feira. Procura uma cidade onde os hotéis, os restaurantes, as livrarias, os espaços públicos, os museus e até as montras parecem participar da mesma narrativa. A experiência urbana ganha coerência. A cidade constrói uma personalidade própria e essa autenticidade torna-se um fator de diferenciação internacional.
Vivemos uma época em que muitas cidades competem pelos mesmos investimentos, pelos mesmos visitantes e pelo mesmo talento. Infraestruturas e incentivos continuam a ser importantes, mas deixaram de ser suficientes. As cidades que mais se destacam são aquelas que conseguem construir uma identidade reconhecível, capaz de gerar pertença para quem lá vive e curiosidade para quem as visita.
Foi isso que Ernst Beyeler percebeu desde o início. Uma grande feira não se mede apenas pelo número de visitantes ou pelo volume de vendas. Mede-se pela capacidade de produzir efeitos permanentes, muito para além dos dias em que acontece.
Talvez por isso a Art Basel continue a ser uma referência mundial. Ao longo de mais de meio século soube renovar-se, integrar novas linguagens artísticas, acompanhar as mudanças do mercado e expandir-se para outros continentes, sem nunca abdicar da excelência que esteve na sua origem.
Há aqui uma reflexão que merece ser feita em Portugal.
Falamos muitas vezes do impacto económico dos grandes eventos, mas raramente discutimos o seu impacto estrutural. Os projetos verdadeiramente transformadores não terminam quando se desmonta a última exposição ou se apaga a última luz. Continuam a produzir efeitos durante anos, moldando a imagem da cidade, atraindo talento, incentivando novos negócios, fixando artistas e criando uma cultura de ambição.
No fim, esse é talvez o maior legado de qualquer grande iniciativa cultural: não organizar um excelente evento, mas ajudar uma cidade a reinventar a forma como se vê a si própria e como passa a ser vista pelo mundo.