quarta-feira, 22 jul. 2026

A arte como destino

Em Portugal, a arte não figura, nem é figurativa. Não existe um claro posicionamento na arte que queremos promover.

A arte sempre apontou o caminho. Mas também se tornou destino, com países a apostar em exposições site specific, em bienais internacionais ou na criação de roteiros inspirados pela arte, como forma de atração turística. Temos os exemplos da Ilha de Naoshima, no Japão, ou da Bienal de Veneza, em que a arte é o destino.

Em Portugal, continuamos a olhar para a arte como aquele círculo ao qual não parecemos pertencer. A arte nunca foi um ativo do país, não figura sequer na lista dos principais atrativos nacionais, encabeçada, e bem pelo sol, pela história, pelo mar, pela gastronomia e pelos vinhos. Em Portugal, a arte não figura, nem é figurativa. Não existe um claro posicionamento na arte que queremos promover.

Mas, como em tudo, percebemos que Portugal já há algum tempo se vem afirmando pela arte contemporânea. Confesso que o meu olhar recai sempre sobre a emergência de uma cultura de arte contemporânea despoletada pelo coletivo de galerias de Miguel Bombarda e pela Fundação de Serralves, em que a arte sempre foi vista como um lugar de experimentação e experiência, pensamento crítico e imaginação. Numa corda bamba, que sempre soube equilibrar o pendor elitista da arte com uma visão democrática.

O sucesso das famosas ‘inaugurações simultâneas de Bombarda’ deve-se exatamente a essa visão disruptiva. Criar novas rotinas na cidade para atrair público para a arte, abrir portas a todos os públicos, dotá-la de uma dimensão social, descontraída, que retira a arte do seu pedestal. E, por outro lado, uma visão coletiva, de entender a arte como conceito e não apenas como produto e, com isso, inaugurar uma nova forma de viver a arte, que não se fecha nas paredes de um museu. Serralves também sempre soube entender a arte como algo que extravasa o espaço expositivo clássico, mas que ganha vida nos seus jardins, nos seus eventos e se torna parte da cidade, e não apenas uma parte.

No mês passado tive o prazer de visitar a ARCO Lisboa, na Cordoaria Nacional, e saí de lá com um sabor agridoce. Em primeiro lugar, por ser coorganizada por uma empresa espanhola, não desmerecendo a experiência e o prestígio da IFEMA Madrid, que certamente é uma grande inspiração, mas pela constatação incessante de que a arte parece não nos pertencer. Depois, porque o evento mantém alguns cânones clássicos para uma feira de arte, com expositores, lado a lado, a digladiar-se pela atenção (e memória) dos visitantes, fechados num grande pavilhão, com talks que continuam a dialogar para dentro do setor. O conceito é necessário, mas tem de haver mais espaço para a arte contemporânea respirar fora dele. Deixar de esperar pelo público, que naturalmente se encerra no mesmo ciclo de repetição e conforto, e ir ao encontro de novos públicos.

Para isso, é preciso fazer o que a arte contemporânea sempre fez: romper fronteiras, provocar, obrigar ao desconforto. Encontrar novos espaços, irromper por novas dinâmicas, permear-se por novos públicos, conjugar-se com outras áreas, com a gastronomia, os vinhos, o mar e toda a lista dos principais atrativos do Turismo de Portugal.

Na próxima semana, no Porto, inaugura-se um novo festival literário, acessível e descomplicado, que promete atrair milhares de pessoas à cidade Invicta, com conversas com autores, apresentações artísticas originais, concertos ao ar livre, oficinas, exposições e sessões infantis. A cultura vai sair à rua e o Porto é o destino.