O título desta crónica é um verso de uma canção de Sérgio Godinho, que me vem à memória sempre que vejo o entusiasmo com que são recebidas as previsões económicas e financeiras. Regra geral, as previsões são apresentadas e noticiadas como que de factos se tratasse. Quantas vezes não ouvimos já afirmações como ‘no próximo ano, a economia vai crescer x%’, ou ‘o PIB vai crescer menos do que diz o Governo?’ E passa-se o tempo a discutir acaloradamente as previsões das diferentes instituições, normalmente separadas por algumas (poucas…) décimas. E até já vimos a intenção de ‘julgar’ instituições por falhas nas previsões… O que vemos não é a discussão de cenários, dos seus fundamentos e da sua plausibilidade, mas a discussão de um número, como se tudo se resumisse a isso.
As previsões são um instrumento útil, mas devem ser vistas com o valor que têm: o de extrapolações sob determinados pressupostos, com base em modelos econométricos. Por isso, também recordo sempre Miguel Beleza quando citava Robert Solow, seu professor, recomendando aos alunos do MIT: «Nunca façam previsões, mas se fizerem, façam muitas…». De facto, não faltam previsões, sobretudo das variáveis macroeconómicas. Não há relatório de bancos, empresas, serviços da Administração, que não tenha as suas próprias previsões, muitas vezes sem se saber qual o seu rigor científico, quais os pressupostos em que assentam e que metodologias usam. Em muitos casos, arriscam mesmo a previsão de variáveis que, em rigor, não podem - ou não devem - ser previstas, como as taxas de juro e as taxas de câmbio. As taxas de juro, por exemplo, são o que tiverem de ser, em função do que a conjuntura exigir da política monetária e da resposta dos bancos centrais. A dificuldade em prever o comportamento dos mercados financeiros está bem patente na incapacidade revelada de antecipar as crises sistémicas. Basta recordar as análises e projecções tranquilas que, salvo raras e honrosas excepções, se faziam até 2006, em vésperas de uma das crises mais severas de sempre, desencadeada em 2007. E não pode sequer dizer-se que ela não era antecipável, tendo em conta os erros prolongadamente cometidos por decisores políticos, reguladores e agentes de mercado. A síndrome de «desta vez é diferente», tão bem descrita por Rogoff e Reinhart em livro com este título, acabou por se impor à generalidade dos analistas.
Perdeu-se também a noção de que os ciclos económicos continuam a existir e que as variáveis macroeconómicas não sobem sempre, como parece ser normal em tantos exercícios de previsão publicados.
Por tudo isto, mais do que perder tempo a discutir as décimas das previsões a curto prazo, interessa estabelecer objectivos a curto, médio e longo prazo e debater e adoptar as políticas necessárias para os atingir.
Um outro verso da canção de Sérgio Godinho diz que «adivinhar o passado é mais seguro…». O problema é que, entre nós, isso não é necessariamente verdade. Há muita informação relevante que só é conhecida com grandes desfasamentos temporais e que, durante alguns períodos, quase tem de ser ‘adivinhada’. Por exemplo, experimente o leitor tentar saber qual é o valor acrescentado nacional contido nas nossas exportações; ou a evolução da produtividade por sectores de actividade; ou os tempos efectivos do licenciamento industrial; ou algo tão simples como o desempenho de algumas empresas do sector público empresarial. Terá, certamente, de lidar com tempos, que podem ser de vários anos, de desfasamento dos valores disponíveis. E isso é um problema, não apenas para a informação a que os cidadãos têm direito, mas, sobretudo, para fundamentar as escolhas e a acção dos decisores políticos.
Não há boas e seguras decisões sem boa e actual informação. Mais do que os indicadores conjunturais ou previsões circunstanciais, importa ter uma bateria de indicadores estruturais que possam fundamentar as decisões de política económica e financeira numa lógica de médio prazo. E, acima de tudo, é essencial ter análise económica competente e independente que, mais do que adivinhar o futuro ou o passado, permita conhecer e interpretar correctamente o presente. Porque, como diz o final da canção, «adivinhar o presente, mesmo tão clarividente, isso aí estás mais entalado…».
Ex-ministro da Economia e Coordenador do Observatório de Políticas Económicas e Financeiras da SEDES